terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Bem-vindo à fogueira das vaidades!


Quanta felicidade, você é mais um adepto do curso da moda, e não apenas isso, de um curso agora consolidado, agora sim reconhecem o quanto o conhecimento e a consciência histórica são importantes, alternativa ideal aos “engenharía-medicina-direito” tanto impostos antigamente pela sociedade. Mas, só acaso, você já sabe se vai sair daqui empregado? Sabe lá se um dia vai exercer realmente a profissão, mas é melhor dar aula. Isso não vai faltar nunca, a prefeitura tá pagando bem. vamos mamar nas tetas do governo e só. Nada mais.

De cara vêm os choques: se você espera movimentos sociais, alunos barbudos, naturalistas de toda as formas, anti-americanismos e anti-globismos, professores camaradas e mobilizadores, debates em prol da sociedade, galeras unidas... Aqui você encontra o desfile de roupas de marca, gente que adora o Big Brother e não pára de falar disfarçando uma “análise sociológica”, noveleiros (Celebridade está em voga), maquiagens exageradas, o academicismo mesquinho da pior espécie, guerras ideológicas de professores alunos, trocas de favores, discussões burras e intermináveis sobre conceitos, professores tirando sarro da cara de alunos, contando suas viagens em sala de aula, e aula mesmo... E o pior: UFG é lugar de gente bem de situação, que tem condição de pagar taxas e textos todos os dias, colocar gasosa no carro ou crédito na carteirinha e estudar durante o dia (o pobre estuda a noite na Católica, depois de ralar o dia todo).

Não perca tempo, escolha logo o seu gueto. Os bem-arrumadinhos-puxa-sacos-que-sentam-na-frente, os doidões do fundão, os que aparecem só pra fazer prova, os que incorporam todos os "ismos", os bobóricos, perdão, teóricos da história, os fundamentalistas do PSTU, os que entram e saem do curso sem saber história nenhuma. E você acha que vai aprender tudo sobre a história? Para isso o curso teria que ter 100 anos!! Tem doutor que fala na maior cara dura que “só sei sobre idade contemporânea, tem 10 anos que estudo só isso”. Mas algumas coisas para se dar bem aqui, você tem que ser e fazer (ou fingir muito bem: 1 – ser mesquinho; 2 – vender bem a grife da UFG lá fora (orgulhe-se, aqui agora tem doutorado!) 3 - ver a história como mãe do tempo, ora, cada coisa tem a sua história, e somente nós, os historiadores, somos capazes de uma pesquisa decente. Se você quiser tentar ser um cara vacinado, gente boa, não tem problema, é difícil, mas não deixe de disfarçar. Ame os conceitos, a escola frankfurtiana, os Annales... No início, dose cavalares de Marx e Weber o farão pirar, provavelmente vai virar um marxista de corredor – sairá correndo pra comprar o Manifesto Comunista. Mas não se iluda, desde o século XIX Bakunin já o escarnecia. Aqui na UFG Marx morreu em 1970 e a França is the best of!!! (via USP ou UnB).

Tá armado o cenário, os tipos ideais são criados para serem utópicos. Se você tinha uma imagem da faculdade, não a dispense — guarde para lembrança. O negócio é segurar as pontas pra não ser um dos vinte, em média, que desistem no 1º ano. O mundo explode lá fora e você aqui, desesperado, perdido, calouro, tentando adivinhar um conceito só, e vai passar o ano todo tentando fazer (e acertar) um fichamento. Fique craque em saber se tal autor é marxista ou weberiano, se é moderno ou pós-moderno. E lembre-se: você é um pobre mortal, reprodutor de pensamentos, títere dos professores, dono de meras opiniões: quem pensa aqui são os doutores. Aqui o conhecimento e a cidadania dão lugar à politicagem e jogos de interesse.

No mais das vezes, você vai aprender mais no corredor do que dentro da sala, e a empolgação pelo curso superior vai afundar em breve: em poucos dias você vai estar falando mal dos professores, fazendo força só pra tirar a média necessária e responder a chamada (pode continuar com o tradicional presente!!!). Sua vida vai mudar, sim. Mas o rumo você ainda tem chance de determinar. A sua vida lá fora continua normal, mas agora, vendo por bem ou por mal, vai ter que saber diferenciar o senso comum. A partir de agora você é parte da academia e faça em si mesmo a revolução – conscientize-se, eduque-se, ensine, pratique. Vacine-se rapidamente ou, em pouco tempo, tais palavras soarão tão subversivas e reacionárias pra você, que dirá que esse meu texto não é bom pois a autora não possui nenhum título ou artigos publicados, não segue uma linha coerente, não tem fundamento teórico e não define se é lulista ou efeagaceana. Passe o hipoglos no bumbunzinho, salte sem medo neste caldeirão e seja bem-vindo à fogueira das vaidades.


"Mudei-me da casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muito tempo a minha alma assentou-se faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas em rachar fio de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. E melhor dormir em meio às vacas que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades". – Nietzsche


(escrito em agosto de 2003)

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