terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Cuidemos de nossos animaizinhos


Deve ser duro ser criança. Uma vida cheia de regras, normas, proibições, modos, um mundo conflituoso, contraditório, castrador. São, em média, cerca de 150 nãos por dia. Que saudade daquela vida na barriga. A passagem para este mundo vem com um susto, depois um choro, mas logo tudo se acalma. Vida boa. É só mamar e dormir – cerca de 16 horas por dia. Mas o tempo vai passando, e nada melhor do que uma festa pequeno-burguesa para relaxar o ego de pais e filhos.

Os pais, os mesmos que não permitem que as crianças vejam algumas cenas do Gugu, mas acham Malhação um “programa educativo”, são aqueles que acham lindo ver a filhinha dançando na boquinha da garrafa. Depois questionam-se porque a filha tornou-se uma galinha. Pra garotada, é realmente uma festa. Podem gritar, xingar, demolir, qualquer coisa é só correr para a mesa dos pais. Mesa esta abarrotada de cerveja, que às vezes os garotos são incentivados para dar um golinho, sob a admiração dos pais machistas. E nem imaginam o motivo que o filho começou a beber cedo, virou alcoólatra.

A mãe, organizadora da festa, quer somente impressionar. As guloseimas, os docinhos, tortinhas, balinhas, a bebida para os adultos, balões, lembranças, decoração, painéis, o nutritivo cachorro-quente. O tema da festa é de escolha da criança. O garoto descarrega a sua força destruidora escolhendo como personagens os mangás assassinos, super-heróis racistas ou outras animalidades surreais. A garota opta por um mundo encantado que ela já sabe que não exista, mas que é necessário disfarçar para manter as aparências.

Pro pai é também uma festa. Ele só quer convidar os colegas de trabalho, pra falar quanto tá valendo a casa, falar das vizinhas, do governo, do aumento de combustíveis, se embebedar, arrotar, peidar. Nem lembra que é uma festa de crianças. Nas fotos, só vai aparecer com cara de bêbado. Reclama quando tem que pegar mais cadeiras ou pegar alguma caixa. Mas orgulha-se em controlar o som, dopar todo mundo de axé ou tecno-funk, afinal, é disso que todo mundo gosta.

É hora de cantar os parabéns, e suspeito se Freud delimitou um exemplo tão nítido do superego com o id. No momento da canção podemos observar os mais belos e sinceros sorrisos misturado às palmas. O ambiente é escurecido mas há uma luz brilhando junto ao aniversariante. Viva o nosso querido amiguinho! Cantou-se todas as incelenças, e o que vemos então é crianças estufando as bocas e os bolsos, as mesas sendo assaltadas como num arrastão, estouro de balões, destruição dos painéis da decoração. Algumas mães dotadas de bom senso preferem acender as luzes somente depois que as crianças “varrem” o local.

Mas não é só: o ápice da festa ainda está por vir. Sabe aquele balão enorme fixado no teto, lotado de balinhas duras e brinquedinhos baratos? É ali que a criança demonstrará toda sua esperteza e poderio. Gerações e gerações se vangloriarão por que o filho foi o que mais conseguiu balinhas naquele dia. Desde o início da festa a garotada está circulando o balão feito urubus ao redor de alce agonizante. A grande dúvida é de quem é mais idiota, se os pais que promovem tal balbúrdia, ou dos filhos que vêem aquele evento como a glória e o fim dos tempos. No momento do estouro, amiguinhos de outrora rasgam-se em lutas colossais, arrastam-se, chutam-se, a ponto de o importante não ser pegar muito, mas que o inimigo não pegue nada. Os pais observam de longe, e recebem os filhos de maneira honrosa, parabenizando-os pelo feito.

Não vou aqui fazer análises psico-sociológicas ou querer desmetaforizar o que escrevi. O que expus nada mais passa do que um treinamento que temos dado às nossas crianças. Criamos um mundo bárbaro, e estamos, se não satisfeitos, pelo menos acomodados a ele, e treinamos dia a dia os nossos animaizinhos para o capitalismo selvagem que alimentamos. Uma tentativa de mudança pode até ser tentada, mas nada de querer dar um nó na vida da criança. Devemos, no mínimo, alertá-la do que está por vir. Alterações nítidas só daqui a algumas gerações, mas, até lá, ainda teremos que freqüentar muitas e muitas festinhas por aí.


(escrito em outubro de 2005)

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