terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Gregos e goianos: será se o calcanhar de Aquiles era rachado como o nosso?


A comparação proposta soa como uma heresia para muitos, mas numa análise sobre a academia é possível encontrar algumas hilárias semelhanças. Se pelo título o calcanhar de Aquiles precisa de um hidratante, a nossa universidade precisa de uma reformulação urgente, sem querer abordar aqui a discussão sobre as reformas governamentais.

Sobre o grego Aquiles, o herói possuía vantagens que beiravam a covardia. Além de ter sangue divino, foi educado por um centauro, usava armadura forjada pelo ferreiro do Olimpo, e ficou invulnerável ao ser mergulhado num rio mágico. Bem, quase invulnerável: o calcanhar ficou fora do banho.

Onde então se poderia ler esta história aqui no nosso goyàz? Vejamos os doutores de nossa querida academia como os Aquiles goianos: ambos são semi-deuses. Os doutores nos exigem um raciocínio como o deles, e isso, além de covarde, é indesejado de nossa parte. Como Aquiles, eles têm sangue divino, afinal, foram educados pelos centauros dos anos 1960/70, protegidos pela confortável armadura burocrática dos tempos atuais.

Mas, claro, nada é perfeito, e há uma parte vulnerável nos semi-deuses goianos: são os olhos. Os olhos deles, tão sensíveis e melindrosos que mal nos encaram quando conversam conosco, os desprezíveis mortais. Deve ser por isso que evitam tanto o “bom dia” pelos corredores. Até as faxineiras reclamam, e alunos desequilibrados acabam se desviando pelo mesmo caminho, repetindo tais gestos. Os olhos dos professores só arregalam mesmo quando “ousamos”" algo, como expor opinião, geralmente tratada como heresia, ou ao propor alguma inovação, geralmente rechaçada, pois foge às atuais tendências... No geral, são olhos falsos. Recusam o mundo real.

Estamos aqui preocupados em nos mostrarmos grandiosos por fora, manifestando toda a pompa através de títulos aqui distribuídos, mas nem de greve somos lembrados, até porque ninguém sabe se existimos realmente ou estamos permeados pelas teorias científicas do mundo surreal de Matrix. Somos, na maioria, “falsos cientistas, que por inveja e tantas críticas, inibimos a criação de alguns poucos estudiosos e pensadores – a maioria dos professores se encontra em posições cômodas; para essas pessoas, não é necessário mudar a rotina do dia-a-dia, que de tantos dias, vira rotina de décadas. Esta situação cria um comodismo grande e uma miopia extraordinária, que nem sequer permitem enxergar, e muito menos imaginar, que outro modelo de universidade é possível” (Altair Sales Barbosa). Nada mais que um corporativismo docente.

Mas uma coisa é certa: já há muito deixamos de cumprir as nossas finalidades. Os gregos, com a guerra em Tróia, celebram a criação do Ocidente, e nós, na academia, o sepulcro de nosso futuro. Nos acostumamos a jogar a culpa no ensino fundamental, mas isso é só um reflexo, pois quem está formando os dirigentes deste ensino? E vivem a criticar as privadas, mas são as públicas as fossas de tudo isso. E “"o professor que insiste em produzir e incentivar, é sempre visto ou malvisto como algo estranho. Seus discursos e lamentos raramente encontram ressonância, e de tanto repetirem a mesma ladainha, muitos se acomodam” (A. Barbosa).

O que parece é que estamos rodeados de Agamêmnons, que de tanta ambição, começam a querer engolir seus próprios pares, entrando em conflito com Aquiles. Este, o troiano Paris deu conta do recado, matando-o com uma flechada no calcanhar. Ainda na infância, um oráculo previu que Páris representaria a destruição de Tróia, e, por isso, seus pais o abandonaram para morrer. No entanto, um pastor salvou o menino. Páris cresceu, meteu-se numa confusão dos deuses, raptou Helena e acabou cumprindo a profecia.

O destino da universidade será o mesmo do de Aquiles? Surgirá um Páris do cerrado para cravar a flecha nos olhos dos doutores? Claro, já vão jogar a culpa no governo, no sistema, nos pós-modernos. Só que, analisando bem o título do texto, os goianos substituem aí os troianos, ou seja. Paris representa nós mesmos, e mora dentro da própria universidade. Desde já, não se preocupem. Ele é como Príamo, rei de Tróia, que pagou caro por ter esquecido os oráculos e acolhido Paris depois de descobrir que ele era mesmo seu filho. Quando Paris seqüestrou Helena, Príamo, assim como todos em Tróia, ficou tão encantado com a moça que nem questionou o rapto. Fascina a todos nós as luzes, o brilho, o novo ouro, os títulos, o conforto pequeno-burguês descarregado no controle remoto. O ouro é refinado no fogo, e este Paris logo refina o intelecto e se deleita na fogueira das vaidades.


(escrito em novembro de 2003)

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