terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Meia-volta, volver!


Partindo de um pensamento que se inicia nas organizações militares e vai até toda a sociedade, o Estado, trajado de boina, charuto e rifle, tem sido o maior revolucionário social do país. Converse com um recruta que ainda "serve à pátria" ou que já deu baixa e observará na consciência dele somente uma ordem: matar, matar, matar...

O serviço obrigatório, que há muito é opcional, ainda alista alguns milhares de jovens anualmente. São cerca de nove meses de tormenta, correndo num mato sem cachorro (mas com muitas cobras e aranhas), marchando até afundar o chão, travando uma luta psicótica com um inimigo invisível e politicamente inviável para o Brasil (o único que nos intenta atualmente são os Estados Unidos, sedentos pelo território amazônico, entretanto eles podem nos queimar em questão de poucos minutos).

Primeira lição para os novos pracinhas: a manutenção de armas. E esta é a única. Depois do serviço cumprido, ou de 4 ou 9 anos engajados, os jovens ganham as ruas sem sequer uma formação profissional, ou podemos pensar em algo para eles? Muitos destes só tinham essa garantia durante toda a juventude, viveram uma vida de "esvaziamento cultural" (Otávio Velho), voltam ao desemprego com aquele único pensamento (matar) e esse único ofício (a manutenção de armas), mas onde, por bem ou por mal, colocá-los em prática?

Um bandido não se forma de um momento a outro. Ninguém nasce ladrão. Esse ritual de passagem é vivido de maneira dolorosa (Paulo Lins). Aquele antigo recruta tem uma família que aguarda ansiosa pela sua ajuda financeira, talvez tenha uma namorada grávida, ou vários sobrinhos em casa. A fome, elemento revolucionário da humanidade, bate à sua porta. E ele vai bater à porta do tráfico: "Não quero bandidar, mas tem algo pra eu fazer aí?" Então vai cuidar das armas, fazer a segurança na entrada da favela. No início ele faz de tudo pra não se envolver nos negócios, evitar atirar, se justifica à família que é por pouco tempo, só pra poder juntar um dinheirinho, mas vai subindo o morro e vendo os negócios rolarem, milhares de reais à sua frente, a conveniência do Estado e das polícias.

Esse é um dos caminhos para a formação do traficante. Claro, os caminhos são complexos, as duas redes (a paralela e a militar) são muito bem hierarquizadas. Exemplo dessas duas trilhas é o Dr. Fernandinho Beira-Mar. Todos os seus cursos de graduação foram com bolsas do Estado, não pelo CNPq, mas pelo Exército Brasileiro. Foi recruta, graduou-se como cabo, fez um curso tremendo – o ‘Comandos’ – e doutorou-se como Forças Especiais. Essa inteligência foi dispensada pelo governo e aproveitada pelo tráfico. Aliás, não foi o próprio governo que implantou o ideal de guerra e assassínio neste homem? Será que ele é o único culpado por tal situação? Para não passar fome uma pessoa é capaz de tudo. Há pessoas que moram no lixão, sem ter o que comer, mas recusam-se a cometer algum crime. Outras não.

Quando é que o governo vai perceber isso? Serão necessários novos assassinatos de juízes ou bombardeios a órgãos administrativos para começar a fazer algo? Depois você fica chocado de ler a entrevista do escritor Paulo Lins, autor de "Cidade de Deus" (revista Caros Amigos), onde ele afirma que "eu sei que é politicamente incorreto, mas eu acho certo roubar e matar; talvez isso seja necessário, pois só assim abrirão os olhos para a situação em que vivemos". Esse fazer algo não resume-se às dispendiosas forças-tarefas, às mega-operações, mas ao controle destas forças militares. E antes delas aos investimentos maciços e eficientes em saúde e educação.

Poucos estados aproveitam nas polícias militares os pracinhas que não engajaram, mas o contingente ainda é mínimo. O Estado tem dado o comando de "meia-volta", e aquele jovem, ao virar-se, contempla o outro estado, neste caso, o paralelo. Após o "volver!", ele desbravará o caminho inverso.


(escrito em setembro de 2002)

Nenhum comentário:

Postar um comentário