terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Agradecimentos


Muito obrigado pelos acidentes que rasgam meus amigos ao meio, mortos pela sede de velocidade aliada a veículos frágeis, ou por motoristas dopados de rebites, pois têm que cumprir prazos inumamos para entregas.

Muito obrigado pelos gastos à procura de vida no espaço. E pelos mortos de fome no Vale do Jequitinhonha. Obrigado pelas toneladas de comida jogadas fora diariamente. E os famélicos da África.

Muito obrigado pelas empresas estadunidenses, que estão fechando as portas no seu país para empregarem pessoas nos países pobres. E pelos governos destes países, que os recebem de pernas abertas, sem cobrar-lhes qualquer imposto. Obrigado pelos empréstimos que nos concedem, que nos obrigam a deixar parte do dinheiro com quem nos forneceu. Obrigado pela indústria de guerra, que mantém a economia equilibrada, gastando primeiro com armas, e depois com produtos hospitalares. E pela indústria do cinema, que me faz confundir a tela com a realidade.

Muito obrigado pelas substâncias viciadoras que são colocadas em chocolates, hambúrgueres, cigarros, cafés, xaropes, balinhas.

Muito obrigado pela moda. O que seria de mim se ela?? Eu não saberia o que comer, o que falar, o que vestir, o que comprar. E pela propaganda subliminar, que me faz tomar decisões nas horas que estou com mais dúvida.

Muito obrigado pelos meus 120 kg, pelas fritas e hambúrgueres, pelo controle remoto, pelo computador pelo ar condicionado, pelo sorvete e pela pipoca, pelos sanduíches de isopor e tudo o mais que nos transformam em bolas.

Muito obrigado pela ganância animal que alguns humanos têm por dinheiro. Do desejo de levar vantagem em tudo, de querer ganhar até os mínimos valores, de inventar falácias no intuito de tomar o lugar de quem está em posição econômica melhor.

Muito obrigado pelo discurso religioso, que maquia meus desejos mais selvagens, e me permite falar que tudo de valoroso que tenho “é porque Deus quis”.

Muito obrigado pelo celular que, quando eu não tinha, não sentia falta, e agora que se tornou repentinamente ‘indispensável’, não funciona e nos deixa na mão, mas nunca deixa de funcionar quando o chefe nos procura. Obrigado pelo computador que trava numa hora urgente, quando precisava de uma coisa simples. Obrigado pela máquina de escrever que já dispensei.

Muito obrigado pelos raros bons filmes que passam, mas que, pelo preços dos cinemas (que foram monopolizados pelos shoppings), eu não assistirei tão cedo. Já os livros, até os imprestáveis são caros.

Muito obrigado pelos cânceres, pela diabetes, as LERs, as doenças ocupacionais, os traumas, os dramas, os sistemas paramilitares, as micro-câmeras, os seguranças, as cercas eletrificadas.

Obrigado pelas diversas profissões que posso optar, como administradores de empresas, advogados do diabo, banqueiros, contadores, jornalistas mentirosos, camelôs, lavadeiras, passadeiras, pedintes.

Muito obrigado, Sr. K.

... ... ...

Observação 1: Não se trata de um personagem de Franz Kafka. Este ao qual me refiro é só um homônimo da primeira sílaba de capitalismo.

Observação 2: Um dia um cientista russo fez alguns comentários sobre o trabalho que desenvolveu quando na ex-União Soviética. Disse que seria capaz de construir armas que matasse milhares de pessoas, porém jamais imaginaria criar uma lanterna com rádio. O comunismo russo fez com que as pessoas calçassem todos o mesmo modelo de sapato, e acabou por estrangular o pensamento e a liberdade das pessoas. Com este texto não pretendo menosprezar o avanço tecnológico impulsionado pelo capitalismo, pois reconheço que seja benéfico e útil, como no caso da medicina, mas em criticar a maneira como tudo isso é unilateral. Os exemplos que expusemos são praticáveis no socialismo soviético, mas adquirem um formato mais fútil e selvagem no capitalismo ocidental.

Observação 3: Não peso 120 kg, é só um exemplo.


(escrito em janeiro de 2003)

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