terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Negro


Submisso. Sub-humano. Sub-raça. Subcotado. Subpobre. Subpodre. Subalimentado. Subcontratual.

Já sei, você deve ta pensando que trata-se de um negro que adora ser discriminado, ou se auto-discriminar. Mas não é nenhum complexo de inferioridade. É que eu tô cansado.

Subalterno. Subarrendado. Subempregado. Subavaliado. Subcaudal. Subcinerício. Subentendido. Subdividido. Subnutrido. Súdito.

Tô cansado de entrar em loja e ser vigiado. Das pessoas assustarem quando percebem que tenho bons modos, bom gosto, que pago à vista.

Subordinado. Subespécie. Subestimado. Subjacente. Subjetivo. Submental. Submerso. Submetido. Subministrado.

Mas percebo que eles desconfiam de onde eu tirei essas notas. Saio da loja com o cérebro despedaçado só de imaginar como os vendedores tratariam um negro de origem ou hábitos humildes.

Subregulamentado. Subserviente. Subsidiado. Substituído. Subterrâneo. Subtipo. Subtítulo. Subtraído. Suburbano.

E aí vejo as chamadas “campanhas de inclusão”, que são, nada mais, nada menos, que novas formas de discriminação: são aquelas cotas ridículas em universidades, como se não tivesse capacidade de passar por méritos próprios.

Sublegislado. Subgênero. Subsecivo. Subapreciado. Subcensurado. Subocular.

Ou ter que saber que são reservadas duas vagas para negros naqueles grupos de ‘música’ ridícula, criados de um dia para outro na tv, enfiados goela abaixo devido ao pagamento de muitos jabás.

Subnotado. Subclasse. Sub-registrado. Subtarifado. Sub-recenseado. Submedido. Sublixo.

É chato ver o Pelé quase todo dia na tv e saber que o cara que tem a face mais conhecida no mundo, mais até que Jesus, é também o cara mais omisso quanto a qualquer pronunciamento da sua própria cor. E saber que branqueiam o Machado de Assis a cada dia.

... ... ...

E aquele comentário da vizinha: “Tão inteligente, e é negro!”. E aquela lei: “Racismo é crime inafiançável”. E como aqueles verbos foram criados: pretejar, denegrir, enegrecer. E aquela determinação que “num comercial com duas pessoas ou mais, pelo menos uma deve ser negra” (o grifo é meu – aposto que o Itaú e a Claro gravam seus comerciais lá na Suécia).

Esquisito saber que o negro é sempre o coadjuvante na história, e até nas novelas. Que a boneca negra sempre sobra na prateleira. Que tem brasileiro que discrimina sim, sem nenhum receio, mesmo sem saber que o brasileiro é um mestiço, que 60% da população brasileira tem descendente negro na família, e que o português que nos colonizou é o povo mais mestiço da Europa – uma verdadeira mistura de latino, árabe e até um pouquinho de judeu.

Não tô querendo exaltar diferenças, dividir coisas, reclamar igualdades. Não adianta, não muda de uma hora para outra. O que queria é ver tudo junto, sem ‘privilégios’, sem favores, sem esmolas. Se fui contraditório, se escrevi besteira, me desculpem. Só tô um pouco cansado.


(escrito em novembro de 2005)

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