terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Novo cabresto aos novos peões


Em alguns estados do Brasil já foi implantado o ensino do xadrez nas escolas públicas, e a meta é atingir todos até 2009. Os pais não se cansam de tecer elogios à iniciativa, agradecidos por esta nova tentativa de domar as crianças, e estas orgulham-se de aprender tão cedo esse jogo de gente grande, inteligente e elegante.

Em 1926 os psicólogos Diacov, Petrovski e Rudik, da Universidade de Moscou, foram encarregados de investigar o eventual valor educativo do xadrez. “O ensino e a prática de xadrez tem relevante importância pedagógica, na medida em que tal procedimento implica, entre outros, no exercício da sociabilidade, do raciocínio analítico e sintático, da memória, da autoconfiança e da organização metódica e estratégica do estudo” (Caio José Cardoso Pimenta). E tem mais: inteligência, agilidade, altos níveis de atividade cerebral durante o jogo, além de aumento da circulação sangüínea, liberação hormonal, capacidade física e motora e aspecto postural. Quem ousa argumentar algo contra?

Entretanto, desde os anos 1960 o xadrez não é mais o mesmo. Não que suas regras tenham mudado, mas o modelo do Estado-Providência faliu e o bem estar social dá atenção somente aos “consumidores”, viciados no modelo do “big brother”, na mais incrível semelhança com os escritos de George Orwell, ou você acha que o Estado vai implantar o xadrez nas escolas porque quer ver seu filho mais inteligente??

Nada é de graça no mundo atual. Os torneios movimentam em todo o globo cerca de 20 bilhões de dólares por ano e, pra começar, este já é um valor interessante para as sanguessugas neoliberais. As empresas de marketing também dão as suas mordidas e associam o jogo à inteligência e à esperteza.

Agora o xadrez como “elemento de educação na área escolar, para promover a inteligência, a capacidade e a criatividade dos homens” (Caio Pimenta) já é uma grande novidade, não? O Estado abriu os olhos e percebeu como ampliar seu poder ideológico: moldar desde cedo crianças metódicas, organizadas, disciplinadas, obedientes, legalistas e sociáveis. Traduzindo: desde a infância o Estado terá listado em seus arquivos aqueles que serão os possíveis subversivos, indisciplinados, desobedientes, anti-legalistas, anarquistas, que não vão se encaixar ao consenso de Washington.

O Estado não tolera as passeatas, movimentos sindicais, estudantis e grevistas, ou qualquer outro ideário em desacordo aos moldes vigentes. O xadrez, aplicado dessa maneira, é um projeto toyotista para criar máquinas humanas, obedientes, submissas, gentes paguem seus impostos em dia, não reclamem do Estado, que se submetam a silenciosa e humilhantemente a patrões e burocratas ignorantes, e que no final do ano aceitem sorridentemente os votos de feliz natal e um próspero ano novo!, alimentando a esperança de que um dia tudo vai melhorar!... Um dia!...

E ai dos nossos filhos que se recusarem a fazer o jogo desse xadrez! A sociedade atual pode bem ser representada em suas peças. Na retaguarda, ambiente régio, temos a torre nas laterais, que protege e segrega os plebeus da elite. Há os cavalos que, como a polícia, caminha a movimentos vacilantes, à serviço do poder. Seriam os bispos os novos representantes divino-financeiros?? A “rainha enlouquecida” se move pra todos os lados assim como uma primeira-dama que dá esquetes diários num palácio. E o rei, representante legítimo da burguesia, anda a passos lentos, pois já está onde quer.

Nós, os plebeus, e nossos filhos onde estaremos??? As crianças, os novos alunos do xadrez, estarão comportadas nos bancos escolares, treinando para representarem os peões, sendo jogados à linha de frente como peças descartáveis. O xadrez, sem desconsiderar suas vantagens, será, neste caso do Estado, o novo cabresto aos novos peões.


(escrito em março de 2004)

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