terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O id de Bartolomeu


“Assim disse o Excelentissimo Superintendente-mor destas minas dos Goyaz (versão em língua portuguesa contemporânea):

“Ingratos. É assim que classifico todos estes seres que circulam ao meu redor. Milhares de pessoas passam por aqui todos os dias, e sequer nenhuma reverência a mim. Até parece que não me temem, afinal, não me chamam de diabo velho?? O que percebo, no entanto, é um novo arrocho para comigo a cada mudança estrutural por aqui. Daqui uns dias acabam me expulsando. Antes eu estava circulado por uma fonte, onde alguns descendentes de escravos vinham tomar banho nela. Havia também comerciantes, e era possível alguns subirem até a mim, sendo necessário força policial para retirá-los.

Agora, nem isso. Esta estrada que corta esta cidade de ponta a ponta tem este nome em homenagem a mim, pois fui eu quem desbravei esta capitania. Entretanto estou agora cá em cima desta pedra bem alta, de puro concreto, inatingível. Nem se estes ônibus que por aqui circulam baterem nesta estrutura, não vai haver qualquer abalo a mim. Espero que pelo menos assim estes goianos ainda reconheçam a minha força. Não é fácil ficar aqui exposto, dia após dia, sob chuva ou sol.

Ingratos. E se não fosse eu, nada disso estaria aqui hoje. Diversos bandeirantes e jesuítas já estiveram nestas terras durante os 1500 e os 1600, levando índios para o sul e para o norte, mas somente eu tive a real intenção de por aqui me fixar. Descobriam-se ouro nas Minas Gerais e no Mato Grosso, e esta terra no meio deles era ainda desabitada. Tomei a iniciativa de procurar a Sua Majestade para obter autorização para buscar minas de ouro em Goyaz. Concedida a licença, devíamos arcar com os custos e, caso encontrássemos ouro, receberíamos em troca os principais cargos políticos da região.

Saímos de São Paulo em 1722, eram cerca de 500 homens, contando com escravos e índios. A viagem foi difícil, e logo no início desentendi-me com os outros dirigentes. O suposto roteiro da viagem não levava a lugar algum. Tentado me distrair do estresse da caminhada, comecei a minha coleção de orelhas de índios. Fazia questão de cortar os pares dos desavisados que encontrava pela estrada. Mas a aflição se generalizou, homens morreram de fome e dezenas deserdaram. Eu era um homem obstinado: preferia a morte do que voltar fracassado. A sorte me acompanhou e encontrei o rio Vermelho. Fui nomeado então superintendente das minas. Fundamos o arraial de Sant’Ana, que depois se chamaria Vila Boa.

Gentes surgiram de toda a parte da colônia. Em 20 anos quase todo o território da província foi percorrido e vasculhado pelas bandeiras. Mas as populações surgiram e fixaram-se, mesmo que irregular e instavelmente, somente onde foi achado ouro. A capitania de São Paulo nos abandonou logo, em 1749 – se quebrássemos, quebraríamos sozinhos. Goyaz não sofreu uma decadência, pois não teve auge. A época do ouro foi intensa e breve. Apesar de termos sido o 2º produtor de ouro na colônia, em 1782 a região já estava pobre e desabitada. Foram-se os mineiros, ficaram os desprestigiados roceiros, que só então encontrariam espaço, já que em 1732 eu havia proibido as plantações de canas de açúcar. Índios foram exterminados. Os escravos viviam em condições precárias, e das mulheres só sobraram as putas. Por causa delas, a Igreja amaldiçoou a província várias vezes – um “antro de perdição”. Vila Boa, a cidade encravada entre as serras, era conhecida como a capital de homens de moléstias graves...

Criou-se então o estigma da goianice. Isso virou um problema psicológico: o goiano se via como um bicho do mato. Não é por nada que, hoje em dia, quando nos comunicamos pela internet com alguém do sudeste, perguntam-nos se já nos deparamos na rua com uma onça. “Goyaz era um exemplo a não se seguido”, era o “american way of life” daqui, devido ao jeito preguiçoso e acomodado dos roceiros que aqui ficaram. Quem foi embora não volta mais e quem não conhecer não quer vir. As cidades só serviam para festa religiosa. Vivemos no ócio e no esquecimento até 1830.

Uma defasagem sócio-cultural. Ocorreu a ruralização da sociedade e a desumanização do homem. As transformações políticas e sociais do século XIX, que ocorreram no Brasil afora, passaram alheias à nossa população rural. Por aqui só surgiram chifres – era o incremento da pecuária. Os carros de bois dominaram a passarela, de 1824 a 1927. É um século de chifres!!!

A agricultura e a economia eram apenas de subsistência. Mesmo durante a República Velha o estado permanecia estagnado. A construção de Goiânia revela uma nova etapa de minha capitania. Sou escolhido o símbolo da nova capital. Permaneço voltado para o oeste, para frente. Sou lembrado e louvado enganosamente em livros didáticos daqui como o precursor, o desbravador destas terras. Graças a Deus poucos sabem que sou um assassino de índios, colecionador de orelhas, movido por um espírito mercantilista sedento de ouro, e um orgulho infinito. Mesmo se eu nada tivesse encontrado por aqui, eu jamais voltaria a São Paulo. Teria virado um bicho do mato.

Mas Deus não teve misericórdia de mim, ao ter sobrado para mim somente a fumaça do Metrobus. O mais interessante é que continuo vendo as mesmas coisas como há mais de duzentos anos: a arrocho devido ao quinto do ouro levava os homens à sonegação de impostos, e estou hoje rodeado de vendedores ambulantes; o frenesi durante o período da mineração é o trânsito atual; as putas, estas continuam as mesmas; e os roceiros são os homens de hoje, se misturando com os bois ambos com as cabeças cheias de chifres.”

Aqui assina e dá fé o Excelentissimo Superintendente-mor destas minas dos Goyaz, Sr. Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera


(escrito em junho de 2003)

Nenhum comentário:

Postar um comentário