terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O (seu) conceito e argumentos são o que vale nessa história

Com o olhar perdido no vidro sujo do ônibus e fazendo uma surda batucada da Aquarela do centenário Ary Barroso, um sentimento nostálgico me invade ao ver estudantes do ensino médio e cursinhos vendo o coletivo do Campus e querendo estar nele todos os dias, apesar dos apertos. Bons tempos aqueles onde o professor mais doidão, no seu show business, fazia da aula de História a mais esperada da semana. Despertava-nos uma consciência e ideais, contava-nos detalhes inimagináveis. Ora, eu vou estudar é lá naquela Faculdade de Ciências Humanas, eu vou fazer é (uma) História!... aqueles estudantes sequer imaginam o que encontrarão. Eles não olharam ainda para os meus pés impregnados da gosma eterna de um academicismo mesquinho, onde esta faculdade amarrou seu rabo aos da USP e UnB, e estes, por nos conduzirem, nos puxam e nos fazem andar para trás.

O Prof. Gonçalo nos alerta sempre que letras são como números e um erro em uma delas pode causar uma grande diferença. Que o diga na impressão portuguesa de ‘A idéia de história’ do Collingwood, onde foi trocado ‘racionalismo’ por ‘nacionalismo’, ao tratar sobre a Idade Moderna. Pelo que percebo, os professores absorveram o pensamento do Gonçalo ao pé da letra, assim como os neopentecostais, pois aqui na FCHF não se pode falar um ‘ismo sequer que já somos bombardeados de maneira humilhante, perante toda a sala, “que não podemos usar tal termo para designar o que pretendemos, que estamos cometendo anacronismo, que não sabemos o real conceito daquilo e que somos todos uns jumentos!” Daí, simploriamente, questionamos sobre tal definição, e inicia-se uma viagem inebriante a Hegel, Kant, Aristóteles, Sócrates, Adão, Noé, e a arca fura, a aula termina e nada somos esclarecidos, voltando para casa com uma ponta de inveja do garoto do cursinho.

Pois bem, os incomodados que se retirem, mas estou na academia e pretendo sair limpo, e se permanecer por aqui (se suportar), não deixarei de incentivar o pensamento e a argumentação em benefício da Vida (quantas antíteses citei agora!). As ciências humanas submergem há décadas no campo teórico e a impressão é que lá fora tudo é senso comum. Que comam brioches!

A sistematicidade dos positivistas encaixou a história na academia e seguiu depois disso as outras ciências humanas. A história então se sente a mãe de todas elas (como se a vida começasse na academia) e quer fazer a história de tudo. Divulgamos que somente nós saberemos fazer uma pesquisa decente, que somos conhecedores da história de todos os conceitos usados, e assim tentamos engolir tudo o que aparece à frente. Nos tornamos os Senhores da História Universal, conhecedores do Tudo, nos endeusamos como os escolhidos sabedores da Teoria. Todos as outras ciências estão subordinadas a nós, pois somos os donos de todos os conceitos. Ora, essa apologia da história é inútil (sem querer atacar o Marc Bloch). A história não é tudo, não passa de mais uma criação do Ocidente (pois até pouco tempo, o Oriente não tinha história, conforme a concebemos...).

Quanta decepção ao perguntar àquele professor se ele lia a revista Caros Amigos, e ouvi que eu tinha que ir atrás das “bibliografias”, e começar por Bloch, Gardiner e Borde e Martin (Introdução à História, Teorias da História e As Escolas Históricas, respectivamente). Ou seja, o Brasil e o mundo explodem lá fora e o que vale são somente os artigos publicados! Tenho que ler são os doutores, pois eles têm teses – nós, pobres mortais, temos somente opiniões! Tenho que identificar os conceitos, categorias (???), argumentos. Saber se aquele autor é marxista ou weberiano, se é moderno ou pós-moderno!!!... O graduando nada pode criar, e nem o seu pensamento é original, pois pensa de maneira ocidental, conseqüentemente hegeliana, conseqüentemente kantiana, conseqüentemente aristotélica, conseqüentemente socrática.

Pessoas que se dizem altamente acadêmicas não passam de subversivas. Um professor passa toda a aula falando de suas viagens pelo mundo, do que comeu em cada botequim, das fotos que tirou, que jantou com Carlo Ginzburg e que é ferrenho com seus alunos pois “a nossa formção é a grife da UFG em jogo lá fora”... Temos que suportar as Três Irmãs – todos sabem de quem estou falando, da chefe do departamento positivista, a do ideológico e a do mercadológico. Nada pode entrar ou sair dessa Faculdade sem passar pelo crivo aguçado delas, sempre ávidas de lucros, status e conservadorismos. Ouvimos de um doutor em plena sala de aula que “eu só sei história dessa Idade, pois fiquei 10 anos estudando só isso”. Somos obrigados a acompanhar apreensivos (e com nojo) a guerra ideológica de professores doutores pela direção do mestrado, num claro jogo entre tradicionalismo e um pouco de renovação. Nosso cérebro frita de tanto imaginarmos para onde vão os R$ 150,00 cobrados de mensalidade dos acadêmicos da Especialização, e rezamos para que essa grana não vá parar nos caixas 2 de professores, numa real afronta à tão falada ‘humanidade’. Agora eu entendo o porquê da dedicação mimada à Especialização, superando o Mestrado, que é jogado de um lado para outro. Reacionários, voltam-se para o dinheiro. O conhecimento e a cidadania dão lugar à politicagem e jogos de interesse.

A UFG tem surpreendido e se superado ao seguir o vaidosismo acadêmico da USP e da UnB. Depois do gramado cada vez mais escasso do Campus devido às construções privatizantes da Dr.ª Milca há um estado de quase 5 milhões de habitantes desejosos de conhecimento e consciência históricos, há livros didáticos alienantes, há os ensino médio e fundamental que renovam-se somente nos nomes, há todo um país que nos financia e nos sustenta aqui e em nada temos retribuído após os anos de estudos gratuitos.

Denunciamos parte dos podres da academia, de professores e alunos, mas somos parte dela e se é assim, cabe a nós nos esforçarmos pare reverter tal situação. Queremos uma história que educa, que conscientiza, que ensina e que pratica. Depende de cada um esta revolução e, se caso não for, se ficarmos isolados, nos vacinemos rapidamente contra esse veneno contagiante da academia, onde ser mesquinho é o tipo ideal (me desculpem – não resisti ao conceito).


(escrito em junho de 2003)

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