terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O troco de Peters


Geografia é situação. Usa-se e abusa-se do verbo estar no universo geográfico. Mas ao acompanhar um pouco da cartografia, observo que as coisas têm passado por uma certa turbulência. O índice de suicídio dos cartógrafos deve ser altíssimo. Quando terminam um novo mapa-múndi, eclode mais uma guerra xenófoba e surgem mais países no globo... Onde está a unidade que esta globalização cibernética e pós-industrial prometeu? O individualismo exacerbado destes novos tempos tem feito algumas almas se reunirem em pequenos guetos no planeta com o objetivo de soltarem o grito de ‘independência ou morte!’. E não tem faltado sangue derramado por aí, sob o incentivo dos Estados Unidos e com complacência da OTAN e da ONU, que os digam a população dos Bálcãs, timorenses (é esse mesmo o adjetivo pátrio?) e chechenos.

O estopim cartográfico veio com a compra da Alemanha Oriental pela Ocidental, e a independência das quinze repúblicas socialistas soviéticas em 1989. Na década de 1990, alguns dos presidentes destes países chegaram a propor uma reunificação, devido ao caos econômico, mas tudo continua como está – pelo menos até agora.

Bem no centro da Europa a Tchecoslováquia se dividiu em dois países, duas sílabas para um lado, cinco para o outro. Mas a confusão tem endereço é nos Bálcãs. Até hoje eu não sei se a Iugoslávia existe ou não, mas naquela região há pelo menos cinco novos países. O Canadá pode se dividir a qualquer momento em francês e inglês. Na Espanha, a Catalunha, o País Basco e a Galícia são as regiões de maior autonomia, por serem consideradas nacionalidades históricas, com cultura diferenciada, incluindo língua própria. Na Indonésia surgiu o Timor Leste. A China ocidentalizou o nome de algumas cidades, e lá dentro há também um outro país – o Tibet. As Ilhas Millenium têm este nome para atrair o comércio internacional durante as festas de reveillon – é lá que o ano novo chega primeiro no planeta. México e Porto Rico são quintais oficiais dos EUA. Nos livros didáticos estadunidenses a Amazônia e o Pantanal não pertencem ao Brasil – são territórios internacionais.

Mas o absurdo dos absurdos, claro, foi o neocolonialismo europeu. Numa conferência em Berlim, em 1884-85, dirigentes dos países da Europa, além dos EUA e Turquia, baseados no evolucionismo darwinista, elaboraram a teoria do racismo científico, e dividiram a África como se divide um bolo, onde cada país pegou alguns quadrados para si, com a desculpa de levarem a eles a ‘civilização’. Se civilização é a maneira como os países ricos colonizaram e colonizam até hoje, a barbárie é uma coisa impensável de tão horrível que deve ser. Dessa divisão na África que observamos os países de lá serem traçados por aquelas linhas retas, que ignoraram geografia, cultura, religião e sociedade de seus povos. Na maioria dos casos, nações rivais ficaram num mesmo território, com grande diferença numérica entre eles. Reino Unido, França e Bélgica se tornaram peritos em armar bem os grupos em menor número, para que eliminassem os mais numerosos, e quando o jogo invertia, invertiam-se também os investimentos e armava-se o grupo que estava perdendo, até que os povos iam se destruindo uns aos outros, e o território ficasse livre para uma exploração tranqüila e perene dos recursos minerais, baseado na escravidão dos sobreviventes. Essa expansão européia foi um dos reais motivos que originou a primeira grande guerra. Conflitos locais existem até hoje na África, sem previsão de acabar. Somente em Camarões há cerca de 230 etnias. E os países africanos se unificam, separam-se, mudam de nome, como o Zaire, que agora faz parte da República Democrática do Congo.

Há interesses por trás de toda essa fragmentação territorial no planeta. Uma pré-doutrina Monroe do século XVIII já objetivava a maior divisão possível dos territórios da América Latina, visando a falta de capacidade de fortalecimento e recuperação de células separadas. O Brasil é caso único de unidade na colonização ibérica. E ainda ficou com o Acre e parte do Mato Grosso, tomados da Bolívia. Bem justo o perdão que o presidente Lula concedeu à divida que aquele país tinha com o Brasil. O Uruguai também era território brasileiro, mas era uma região que nada tinha a ver conosco, e Dom Pedro II largou de vez. Também a região sul do Brasil é como se fosse um país dentro de outro, tanto é que houve uma articulação de um movimento separatista na década de 1990. Quem conhece sabe o quanto os sulistas são diferentes do resto do país. Outros mesquinhos são os paulistas, que consideram São Paulo um país, e o resto é só periferia. Também pertinho daqui, no entroncamento entre Peru, Chile e Bolívia, está quase acontecendo uma outra Guerra do Pacífico, por causa de algumas regiões lá, mas como envolvem países pobres, ninguém noticia.

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“Êta, vida difícir é a desses cartrófagos. Mas também, né, quem manda tê esse desejo utópico de querê representá esse mundão véi num pedaço de papér!...”

Observando nas previsões de tempo em telejornais, o estado de Goiás algumas vezes fica parecendo uma botinha, de tão torta que a região sudeste do estado fica às vezes. E é hilário comparar alguns mapas do Brasil e ver as enormes diferenças entre eles na descida que vai da Ilha do Marajó até o Rio Grande do Norte – em alguns mapas é quase reto, e em outros a água do mapa chega escorre, de tão curvada aquela região.

O globo é a forma mais fiel de se representar a Terra. Mas a escala é muito reduzida, sem detalhes, além da dificuldade de manuseio e transporte. Pode-se até arrumar um globo inflável, mas não é nada bom ficar pagando mico em frente aos alunos ao encher a bolona na sala de aula...

As projeções cartográficas são os processos geométricos do elipsóide terrestre no plano da carta. É aí que o bicho pega, e a coisa parte pro lado ideológico. Na projeção de Mercador, a mais comum dos atlas escolares, o paralelo zero está numa proporção de distância de 1/3 do pólo sul e 2/3 do pólo norte. Aí a Groelândia (que pertence a um país rico) fica maior que a Índia (país pobre), apesar de que esta é bem maior que aquela. Aliás, por que, nas primeiras projeções, o Norte (das metrópoles) ficou “em cima”, e o Sul (dos países colonizados) ficou “embaixo”? Pelos menos é real que são os países do sul que carregam e sustentam eles.

Nem a ONU disfarça. O mundo visto na bandeira da Organização é uma projeção azimutal polar. Esta projeção privilegia o ponto de partida da projeção, podendo ser a sua casa, o Palácio do Planalto ou o lugar que você escolher. A projeção da ONU não está centrada em nenhum país, mas no pólo norte, onde só há gelo, tentando transmitir a idéia de que a entidade é “neutra” e representa os interesses de todos os seus países membros... Porém, na prática, os países que mandam na ONU, os cinco do Conselho de (In)Segurança, que são os EUA, Reino Unido, França, Rússia e China, coincidentemente estão mais próximos do centro de projeção azimutal polar do que os países subdesenvolvidos, que ficaram na periferia do mapa. Uma bela alegoria das relações de poder no mundo.

Mas chegou a nossa vez. A Associação Latino-Americana de Educação Radiofônica (Aler) editou o “Mapa para um Mundo Solidário”, distribuído pelo Centro de Documentação Vergueiro, em São Paulo, baseado na projeção de Peters, que tem três pontos elogiáveis: as superfícies são comparáveis, ou seja, um centímetro quadrado representa a mesma área em todos os continentes; todas as regiões terrestres estão representadas; e a linha do Equador está eqüidistante dos pólos, ao contrário dos mapas que seguem a projeção de Mercador.

A projeção de Peters incorre na mesma distorção de Mercador, ao preservar a relação correta entre as áreas continentais, mas apresentando os contornos políticos dos países de maneira incorreta, entretanto Peters sobrevaloriza o hemisfério sul. O “Mapa para um Mundo Solidário” tenta valorizar os povos dos países subdesenvolvidos, ao dar uma visão real do planeta, usando a projeção para por abaixo os sonhos de novas dominações dos povos dos países pobres, propondo uma relação de igualdade. Apesar de tudo, justiça seja feita e o troco de Peters está dado.


(escrito em agosto de 2001)

Um comentário:

  1. Olá Luciano, daqui a pouco eu salvo o texto e faço algumas observações. Entendo como um artigo interpretativo e em verdade há pouca coisa a "alterar", como no caso da sua citação `Alemanha e Iugoslávia, mas o nome existiu até 2003 e você escreveu em 2001. Quer com muito rigor ou preservo a intenção interpretativa? Dou aulas sobre esse tema há muitos anos e gosto muito dele!!!

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