terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Os telejornais


É com desdém que acompanho o telejornal brasileiro atualmente: reportagens curtas e superficiais, assim como flashes chocantes e alienantes, que mais desinformam que informam, julgamentos precipitados, favorecimento da elite e matérias vendidas.

Sempre que há algum escândalo ou tragédia, o maior objetivo é encontrar um culpado, mesmo que seja um ‘fabricado’, como no caso de Osama Bin Laden, que até hoje pouco foi provado contra ele. Assim como o governo precisa dar uma resposta, a tv também se vê assim, como se fosse para os telespectadores descarregarem energias negativa ao suspeito. Gentes morrem todos os minutos, mas quando alguém atenta contra um filhinho rico, sai de baixo! A tv e a polícia remoem tanto o assunto que logo produzem um culpado pra ver se aquietam sobre o caso (que nada: a imprensa quer mostrar o rosto, a família, a infância, até o assunto esgotar). E nem sempre quando é confirmado o contrário o telejornal se corrige. Lembra das falsas suspeitas de pedofilia no Colégio Base, em São Paulo?

Sobre o favorecimento da elite, isso nem se discute, já que ela é a proprietária das grandes redes de comunicação. E tome matérias condenando o MST, por exemplo. Não há notícias sobre os grandes sonegadores de impostos ou sobre a culpa da elite pela pobreza no país. E é descarada a amizade de Boris Casoy e FHC... As matérias vendidas nem enganam mais: ‘reportagens’ sobre filmes ou novos produtos e estabelecimentos. E não param as pesquisas manipuladas e o tráfico de interesses.

As mudanças percebíveis são a introdução da mulher na apresentação, procurando chamar a atenção do público feminino, a alternância de notícias boas e ruins, para anestesiar a população, terminando sempre com uma boa notícia, sempre apresentada pela mulher, espaço maior para os esportes, o ópio do povo, o corte das perguntas dos repórteres, comprovando talvez a sua mediocridade, mostrando apenas a resposta do entrevistado.

O jornalismo goiano é apenas para resolver prendas domésticas: o asfalto, a água, o fornecimento de energia. O Jornal Nacional foi vítima do livro “A Deusa Ferida”, organizado por professores da USP, para a expor a queda da Tv Globo, devido à “maravilha” do real (o consumidor vai ao shopping à noite), o crescimento das outras emissoras e das tevê à cabo. Aliás, esta mesma USP deveria chamar “A Verdade”: sempre que os telejornais necessitam atestar a veracidade de algo procuram um professor de lá para dar o veredicto final.

Mas o que mais decepciona no Jornal Nacional é, todos os dias, noticiarem as “news” do Big Brother ou do No Limite. O nome também poderia ser “Jornal internacional”, já que metade das notícias é pra falar dos outros países: as invasões estadunidenses, a Argentina falida, os ‘coitadinhos’ dos judeus, os ‘terroristas’ palestinos, o euro – são raras as notícias sobre os países pobres, o normal é o correspondente de Londres cobri-las.

O telejornal brasileiro nunca teve sua real função política, de informar, debater, esclarecer. O telejornal abre grande espaço para as notícias de variedades, o ninho de passarinhos em cima do ponto de ônibus, o turismo crescente no Nordeste, o casamento do astro da tevê ou do futebol. Enquanto isso os governadores do Acre e do Amapá são ameaçados de morte e ninguém fica sabendo de nada, não mostram que a Argentina faliu por ter seguido o FMI, o neo-nazismo israelense, e que metade do orçamento é pra pagar dívidas. E os complôs nunca acabam, aquelas notícias que realmente fariam a diferença nunca vão ao ar, sobre a dívida e(x)terna, os recessos e salários e novas leis do Congresso, as reuniões secretas de George W. Bush, as novas determinações do Banco Mundial e do FMI... Falando nisso, qual foi a última vez que ouviu falar de Fernando Collor, Luís Estevão, Alceni Guerra, Magri, Pitta, precatórios, Cacciola, Ricupero, Bancos Econômico, Marka, Santos e São Jorge, CPI do Banestado, compra de votos no Congresso, máfia no Espírito Santo e milhares de outras coisas que eu também esqueci???


(dezembro de 2004)

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