terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Por uma outra oração


Se você faz parte de qualquer grupo social que realize uma prece antes de iniciar ou ao término de alguma atividade, se atenha ao que as pessoas têm falado neste momento. Em caráter geral, são proferidas alguns poucos agradecimentos, pela saúde, pela casa que tem, pela família, pelo emprego. A segunda parte é suplicante, reivindicatória, e chega a ser chantagista. As pessoas falam que estão sendo boas, honestas sinceras, e por isso pedem proteção aos filhos, à família, à casa, ao emprego. A frase “seja feita a Vossa vontade” pouco tem sido pronunciada, pois as pessoas estão com medo da vontade de Deus, devido a algumas coisas que andamos vendo por aí neste mundo. É um “livrai-nos do mal” que não acaba mais. As pessoas vivem com muito medo do mundo e têm (se) sofrido bastante.

De maneira abrangente, este simples detalhe observado é conseqüência da atual globalização. O capitalismo financeiro, tendência do momento do capitalismo, proclama que quem tem dinheiro tem poder, independentemente da maneira que o consiga. Ninguém quer e ninguém pode ficar sem ele. As pessoas que moram nos países pobres, oprimidos pelos países ricos, vivem em constantes crises, conseqüentemente andam desesperançadas, cansadas, sofredoras, daí tão pedintes. Observamos também uma individualização exacerbada, característica essa oriunda do indivíduo para a sociedade, mas também desta para aquela. As pessoas têm medo de doar-se (e ficar sem), de serem taxadas de bobas devido a um ato simples de honestidade, ou de serem caridosas e não serem reconhecidas ou recompensadas. A sociedade também lhe impõe uma forma de egoísmo. Se ele não estudar para o concurso, outro ficará com a vaga, se não tornar-se o multifuncional na empresa, correrá o risco de ser demitido, se não se destacar para tal pessoa, jamais a conquistará. É uma constante luta para viver.

Outro ponto interessante sobre a individualização é o endeusamento dos humanos, ou a humanização de Deus. Conheça qualquer pessoa, observe um diálogo entre duas ou mais. Cada um se acha o dono da razão. Ninguém tem defeitos, todos são perfeitos, jamais erram, sempre apresentam algum argumento, uma desculpa. Fazem sempre o possível, e isso já é muito. Ora, ninguém faz nada, nem Deus, nem o governo, por que ele vai fazer?

Já no movimento inverso, Deus ainda é o todo-poderoso, mas parece que já entregou o mundo aos homens. Ele está se tornando um ser simples, alguém afastado, um conhecido. Alguém com quem se pode negociar recompensas, trocas de favores, promessas. Como exemplos os jejuns desnutridores, autoflagelos inúteis, caminhadas desidratradoras e contundentes. De preferência nada que mexa com o seu bolso.

As pessoas andam tão sofredoras e tão cansadas que acabam se apegando facilmente a algo: a um ídolo, ao dinheiro, ao emprego. Talvez por isso tantas são as petições quanto ao emprego e às proteções. Como se Deus fosse presidente do sindicato ou dono do supermercado. O rebaixamos à nossa vil materialidade. E Jesus, conforme alguns adesivos e slogans por aí, é dono de vários carros e empresas. A intenção disso é levar o ladrão a um exame de consciência?, ou mostrar-se perfeito, salvo e perdoado?

Deus é Pai, não é padrasto. Mas algumas pessoas dizem que Ele castiga, e insistem em dizer que são tementes a Ele. Ora, indubitavelmente, é um dos únicos seres em que podemos ter total confiança, afinal de contas, é nosso Pai, e nem adianda esconder algo. Ele é Amor: fará tudo de bom por nós, mesmo que para nós o que tem acontecido não seja bom. Nada de ter medo de nosso Pai. Só que ultimamente Ele tem conversado somente com algum de nossos irmãos. Ouvimos assim: “Deus está me falando que eu devo fazer isso”. Outras nada ouvem. Como se Ele estivesse ao lado de somente alguns. Mas, na verdade, Ele está com todos, e em todo os lugares.

Durante a Idade Média, segundo o historiador francês Jacques Le Goff, o homem medieval era “um homem de Deus”. Ele vivia em mundos múltiplos, vizinho próximo do céu e do inferno, e num período depois também do purgatório. Descrição clássica disso é a obra Divina Comédia, de Dante Alighieri, considerada a síntese mais perfeita do pensamento medieval. Não havia a concepção de um homem ateu. O poder do clero católico mesclava-se ao poder político. Duas das ideologias da Igreja Católica foram a da teoria da predestinação, divulgada por Santo Agostinho, onde antes de nascer o homem já tinha o seu destino determinado, ou seja, se um homem tivesse que ir para o inferno, já estaria decidido antes de seu nascimento, mesmo que não fizesse jus a isso; a outra é a do livre-arbítrio, proposta por São Tomás de Aquino, onde o homem poderia escolher o seu caminho. No início da Idade Moderna, com a Reforma Protestante, apresentada por Martinho Lutero, que baseou-se nas epístolas de Pedro e Paulo, o homem seria salvo somente se tivesse fé, e isso já bastava, o que percebemos muitas pessoas concordarem com esse ideal, mais cômodo e não requer esforço algum, e que acaba indo de acordo com o ideal de Santo Agostinho.

Na Suíça, João Calvino, um discípulo de Lutero, vai mais além e propõe que, juntamente à fé, o homem também seria salvo pelo trabalho. Neste instante Calvino salvou a burguesia que Lutero havia discriminado. A teoria da predestinação adquire caracteres absolutos. O sociólogo alemão Max Weber elabora um pensamento inédito, que ele descreve em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, onde ele vincula o nascimento do capitalismo à doutrina calvinista da predestinação e à conseqüente interpretação do êxito material como garantia da graça divina.

Verificamos que, atualmente, encontramos pessoas que seguem um destes quatro ideais. Há os que já delegaram tudo à “mão de Deus”; os caridosos que lutam para construir um mundo melhor; os que oram sem parar, ignorando o mundo exterior (e quem reza demais também dá bom-dia a cavalo); e aqueles que trabalham, trabalham, trabalham. A burguesia se compara a estes últimos, ‘trabalhando’ muito, dizendo-se democráticos, sem tempo para as coisas, acumulando bens, empregam pessoas opressivamente, mas dizem fazer o bem, e pedem as suas proteções. Os pobres também têm trabalhado muito, mas desconhecem a teoria calvinista, e não lutam para viver, mas para sobreviver.

Parece que Deus também já se enroscou por aí, pois segundo alguns adesivos lemos que “Sou de tal templo religioso, graças a Deus!” Talvez Ele não tenha se ocupado em direcionar as pessoas a uma religião específica, mas à simples e pura prática do bem. Certamente, para Ele, não é o templo religioso que salva. Quem salva, modéstia à parte, é Ele mesmo. E Deus é Amor.

Fazendo uma leitura mais profunda das religiões, observamos que todas elas, num estudo sobre a prece, nos remetem a pedirmos somente duas coisas: coragem e sabedoria. Os demais pedidos que ouvimos atualmente apenas concordam com esta fase que a humanidade tem vivido. E isso passa. A oração não deve ser dispensada, ela é a ligação à superioridade divina. Para qualquer situação nova em nossa vida, peçamos apenas que Deus nos abençoe, afinal, Ele sabe perfeitamente o que fazer.


(março de 2005)

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