terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um rosto


Conforme a teoria sociológica proposta pelo alemão Max Weber, o mundo, em seu desenvolvimento técnico-científico, passa por um processo de desencantamento, que leva a humanidade à racionalização, tendo como exemplo a atual ausência de líderes formados por carisma, e estes líderes, quando conseguem formar-se, são rapidamente engolidos pela rotina ou adaptação ao cotidiano. Vivemos uma época de Tomé, do “ver para crer”, mas, sobretudo, do “entender para crer”. O imaginário europeu depositava todas as suas fantasias no Oriente. Esperava encontrar sereias, dragões, monstros do mar. As viagens promovidas pelos portugueses desmistificaram as Índias, e todas as esperanças de encontrar aqueles seres foram transferidas para a América. Invadida esta, desiludiu-se o europeu de seus frutíferos pensamentos.

Mas há coisas que permanecem incrustadas no imaginário ocidental por séculos, sem perspectivas de mudanças. Os primeiros retratos de Jesus somente apareceram após o século V, mas eram pura especulação. Os gregos o mostravam sem barba, parecido com o deus Apolo. Em 1514 alguém forjou um documento sob o nome de Públio Lêntulo, o governador romano que sucedeu Pôncio Pilatos, com a seguinte descrição de Jesus: “É um homem alto, de boa aparência e aspecto amistoso e venerável; a cor do cabelo não tem comparação, de cachos graciosos [...] repartidos no alto da cabeça, caindo para frente em cascata, à moda dos fariseus; tem a testa alta, grande e impressionante; as faces não têm mancha nem ruga, belas e coradas; o nariz e a boca são talhados com primorosa simetria; a barba, de cor igual à do cabelo, abaixo do queixo e repartida no meio como um garfo; os olhos, de uma azul luminoso, claros e serenos...” O escritor evangélico Philip Yancey uma vez mostrou a uma classe algumas dezenas de slides artísticos com o retrato de Jesus numa variedade de formas – africanas, coreanas, chinesas – e depois pediu à classe que descrevesse qual achavam ser a aparência de Jesus. Quase todos acreditavam que fosse alto (improvável para um judeu do século I), muitos disseram simpático e ninguém disse com excesso de peso. Quando passou um filme que apresentava um ator rechonchudo no papel-título, alguns da classe acharam aquilo ofensivo.

Uma tradição que data do século II acreditava que Jesus fosse corcunda. Na Idade Média, era difundida a crença entre os cristãos de que Jesus sofrera de lepra. Muitos cristãos atualmente achariam tais idéias repulsivas e talvez heréticas. Ele não foi um espécime perfeito da humanidade? Mas em toda a Bíblia encontro apenas uma descrição física de Jesus, onde a aparência exterior dele é caracterizada como destituída de qualquer beleza, uma profecia escrita centenas de anos antes do nascimento de Cristo. Eis o retrato de Isaías, no meio de uma passagem que o Novo Testamento aplica à vida de Jesus: “Exatamente como muitos pasmaram à vista dele – o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua aparência mais do que a dos outros filhos dos homens [...] Não tinha parecer nem formosura; e, olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais indigno entre os homens de dores, e experimentado no sofrimento. Como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum”. Por causa do silêncio dos evangelhos, não podemos responder com certeza à pergunta sobre qual era a aparência de Jesus, e isso é muito bom. Nossas representações vaidosas de Jesus falam mais a nosso respeito do que a respeito dele. Ele não tinha nenhum brilho sobrenatural ao redor de si: João Batista admitiu que nunca o teria reconhecido não fosse uma revelação especial. De acordo com Isaías, não podemos apontar para a sua beleza ou majestade ou qualquer outra coisa em sua aparência que explique seu poder de atração.

No século XVI foi abandonada a origem judia e confirmada a ocidentalização da aparência física de Jesus, com o patrocínio dos mecenas a artistas como Rafael, Michelangelo, Da Vinci e Botticelli, que seguiram, cientes ou não, da suposta descrição de Públio Lêntulo. Os espíritas, que mesmo destituídos de representações materiais, também têm, através da pictoriografia (manifestação da mediunidade através da pintura), um retrato de Jesus, que se assemelha ao habitualmente conhecido por nós, porém de cabelo loiro e de olhos claros. Em 2001, um grupo de cientistas divulgou um possível retrato de Jesus: as pessoas ficaram escandalizadas (a imagem acima). Era exatamente o retrato descrito por Isaías. Ninguém iria querer andar por aí com uma camiseta estampando tão inexpressiva face. Talvez o próprio Jesus estranhe hoje em dia as imagens dele por aí, como quando Philip Yancey fala que guardou na infância um Jesus comendo bolachas com suco, bem sorridente. Sobre o sorriso de Jesus, fica o excelente texto do escritor Carlos Romero, “Jesus sorriu, sim!” (Revista Espírita Allan Kardec, nº 40, pág. 6 Goiânia – GO).

O objetivo desta explanação foi levantar uma simples discussão sobre a face de Jesus, e não tentar uma ingênua humanização dele, rebaixá-lo à nossa grossa materialidade, mesmo que tenha tido um corpo material. Devemos abandonar todas e quaisquer imagens e procurar retratá-lo imitando-o em nossos gestos. “Uma busca de Jesus acaba sendo uma busca de nós mesmos”, e “ninguém que o encontrar continuará sendo o mesmo”. A estampa que devemos ter de Jesus tem de estar pulsando de maneira mais profunda em nosso peito, mais exatamente no órgão que foi escolhido pelo imaginário ocidental durante o Romantismo para ser o cerne de nossas emoções, que é o coração.


* Os 2º e 3º parágrafos foram extraídos do livro “o Jesus que nunca conheci”, de Philip Yancey.


(organizado em setembro de 2004)

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