segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

E Marx tinha razão...


Nos corredores universitários podemos encontrar dois tipos de "comentadores de Marx": aqueles que afirmam sarcástica e enfaticamente que, com o fim da 1ª Guerra Fria (visto que a 2ª teve início em 11 de setembro de 2001), o Marxismo ex-URSS acabaram. Os outros, que se consideram marxistas de carteirinha, discípulos da filosófa marxiana Marilena Chauí, aqueles que apenas leram "O Manifesto Comunista" e acham que dominam toda a filosofia marxista, dizem que tudo o que acontece no mundo é por interesse econômico: as guerras, os casamentos, as composições musicais e até mesmo uma conversa aleatória. Os primeiros erram pois a teoria de Marx pode ser plenamente aplicada nos dias de hoje neste mundo globalitário, como afirmava o eminente geógrafo Milton Santos.

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Marx era materialista. Dizia que o homem começou a pensar a partir do momento em que começou a produzir coisas, da necessidade de comer, beber, vestir-se. Para ele, o processo de desenvolvimento preservava sua continuidade (conexões) em uma linha contínua -- a linha da história econômica, e o que movia esta história é a luta de classes, sendo o proletariado a inevitável superação da sociedade capitalista, com o advento do socialismo. Afirmava que "o trabalhador é tanto mais pobre quanto mais riquezas produz. A desvalorização do mundo humano cresce na razão direta da valorização do mundo das coisas. As máquinas, dotadas da propriedade maravilhosa de encurtar e fazer mais frutífero o trabalho humano, provocam a fome e o esgotamento do trabalhador. As fontes de riqueza recém-descobertas convertem-se, por arte de um estranho malefício, em fontes de privações. Os triunfos da arte parecem adquiridos ao preço de qualidades morais. O domínio do homem sobre a natureza é cada vez maior; mas, ao mesmo tempo, o homem se converte em escravo de outros homens ou de sua própria infâmia. Até a pura luz da ciência parece não poder brilhar mais que sobre o fundo tenebroso da ignorância. Todos os nossos inventos e progressos parece dotar de vida intelectual as forças produtivas materiais, enquanto reduzem a vida humana ao nível de uma força material bruta."

A produção é a atividade vital do trabalhador, a manifestação de sua própria vida, desde que não se tornem instrumentos de exploração, opressão e alienação, onde um homem acaba adquirindo poder sobre outro homem, o valor da mercadoria é definido simplesmente pelo tempo de trabalho socialmente necessário, desprezando forças individuais e diferenças entre habilidades e capacidades, e a mercadoria acaba assumindo um caráter fetichista. Nessa situação o homem se vende (seu trabalho) 10, 12 horas por dia e passa a viver somente quando sai do trabalho.

O grande erro de Marx, afirmam os historiadores, foi quando ele abandonou o posto de filósofo e virou torcedor: que o mundo em um determinado momento abandonaria a coerção e a monopolização, culminando com a sociedade comunista, fruto do socialismo. Se depender de Wall Street, este mundo ainda vai demorar a chegar.

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'Os outros' do início deste texto, os que apenas leram o Manifesto, apesar de tudo têm a mais completa razão. Neste mundo globalitarizado, contam-se apenas os consumidores. Todas as guerras no mundo, por um lado ou por outro, aconteceram e acontecem por interesse econômico. Peter Berger em suas "Perspectivas Sociológicas" nos mostra que casamentos e grupos sociais se reúnem, intrinsecamente, por condições econômicas. Cantores gravam com interesse em vender suas músicas para as novelas da Globo.

Não é necessário ir tão longe. Índios são massacrados de acordo com a área que habitam. Professores que te incentivam quando na graduação, te desprezam quando sabem que vai tentar um mestrado - a partir daí você é um concorrente. Mulheres se conceituam de acordo com o que vestem. A propaganda subliminar te faz consumir coisas que não deseja. Pessoas te isolam quando se veste mal (ou muito bem), ou quando não tem celular. Quando recebe uma visita e seu filho vem te avisar mas não sabe o nome da pessoa, você pergunta "Qual é o carro?" para identificar, o que a criança responde prontamente, pois conhece todos os automóveis.

E as virtudes do ser humano, os valores perenes, para aonde vão, onde ficam, onde estão???


(escrito em novembro de 2001)

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