sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"A guerra que ninguém vê"


Texto de Herbert Moraes

"A guerra que ninguém vê"

"Você lê e assiste ao noticiário diariamente. Acha que está por dentro de tudo. Até mesmo de assuntos distantes como o Irã e seu programa nuclear. Mas por trás do que vemos existe um outro mundo a que poucos têm acesso. Onde o impossível não existe. Uma verdadeira guerra, que acontece debaixo dos nossos olhos e ninguém vê"

"Na semana passada o ex-diretor geral do Mossad, o serviço secreto israelense, fez um convite inesperado e único na história de uma das melhores e mais eficientes agências de inteligência do planeta. Um ônibus lotado levou dezenas de jornalistas para um lugar secreto, onde Meir Dagan esperava para uma conversa que durou mais de três horas. O cardápio de perguntas e respostas era variado, e o ex-diretor não se importava em falar (obviamente o que podia e até o que não podia). Mas dois assuntos ele fez questão de ser bem claro: “O Irã não vai produzir a boma atômica até 2015, e que uma ofensiva militar em território iraniano seria desastroso”.

"Dagan foi diretor da agência durante oito anos e reabilitou o serviço secreto israelense. Comandou operações arriscadas e conseguiu infiltrar seus agentes em lugares inimagináveis. Mas sua maior conquista foi o tempo. Ele conseguiu esticar o prazo que o mundo imaginava ser mais curto, para que o Irã construísse a bomba. E atrasou os planos dos ayatolás. Mas o ex-diretor se esqueceu de dizer que o Irã deve obter capacidade nuclear militar nos próximos dois anos, e apesar de não ter a bomba já possui material suficiente para produzir não uma, mas duas ogivas nucleares. E se os aiatolás se desesperarem podem optar por um urânio altamente enriquecido e a mudança pode ser feita em apenas um ano.

"O governo acha que devido a entrevista Dagan colocou o país em risco, e trouxe ainda para mais perto a opção militar. Ao dizer que um ataque ao Irã seria desastroso, deu a chance para os iranianos continuarem galopando. O homem da inteligência não explicou porque quis falar, mas produziu uma má intepretação de informações. E foi censurado diplomaticamente e profissionalmente.

"Mas mesmo antes da entrevista de Dayan, analistas já diziam que Israel não vai atacar o Irã. Pelo menos nos próximos três anos. Não vai atacar antes de tudo, porque os Estados Unidos se opõe a uma nova movimentação militar. Internamente a decisão de uma operação no Irã também dividiu o governo. O primeiro-ministro não descarta a hipótese, mas o ministro das Relações Exteriores, Avgdor Lieberman, discorda, acredita que as consequências serão desastrosas porque não só o Irã, mas o Hezbolá no sul do Líbano e o Hamas na Faixa de Gaza retaliariam com um chuva de milhares de mísseis em todo o país. No entanto a guerra de nervos que acompanhamos pela mídia diariamente tomou outros rumos nos últimos meses. E o ataque que todos discutem se vai acontecer ou não, na verdade já aconteceu. E quem deu a chance foram os iranianos, que atrasaram seu programa nuclear e colocaram uma pulga atrás da orelha de outros experts no mundo ocidental. Depois foi a interrupção parcial de milhares de centrífugas em Natanz. Até um ano e meio atrás o Irã tinha 10. 000 centrífugas em pleno funcionamento, agora de acordo com o último relatório da Agência Internacional de Energia Atômica, somente 4.000 estão operacionais. O modelo usado pelo projeto iraniano é considerado obsoleto, de design primitivo e tende a estragar com mais frequência, o que exige que os profissionais que trabalham diretamente com elas sejam altamente qualificados. Mas mesmo assim não foi impossível para que um time de cientistas cibernéticos israelenses aprendessem como funcionava um modelo de centrífuga da usina de Natanz que conseguiram copiar. A partir daí não foi difícil para criarem um programa sofisticado que foi introduzido no sistema de controle e operacional da usina iraniana. O vírus mortal se espalhou pelas redes, alterou todo maquinário e danificou milhares de centrífugas.

"Quando isso aconteceu o Irã divulgou que a usina havia sido sabotada e culpou o Ocidente e Israel. Mas não é novidade que nos últimos anos, sabotagens ao programa nuclear iraniano que vão desde o assassinato de cientistas em atentados inexplicáveis a até equipamentos estragados e falsificados vem acontecendo. Mas mesmo que a data limite seja 2015 especialistas garantem que se um ataque maciço fosse realizado hoje nas instalaçoes nucleares iranianas atrasaria no máximo três anos para que fizessem a bomba. Já o cibernético levou apenas alguns minutos, salvou vidas e atrasou quatro anos o programa. A previsão era que em agora em 2011 a bomba dos aiatolás fosse uma realidade. Ainda não é. Pelo menos por enquanto."

Nenhum comentário:

Postar um comentário