terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Transferência de valores


Lira suméria com cabeça de touro dourada, que estava no Museu de Bagdá e pode ter sido destruída - um patrimônio insubstituível.

(Este texto é de abril de 2002, motivado pelos furtos no Museu de Bagdá após a invasão estadunidense, republicado agora pois cabe bem aos ocorridos em museus do Egito, durante a revolução que derrubou Hosni Mubarak, neste mês de fevereiro)

"Provavelmente você já viu por aí uma caricatura de George W. Bush com aquele bigodinho de Adolf Hitler. Ambos (des)governantes se sentiriam ofendidos e o considerariam um inimigo da democracia caso, por exemplo, você emitisse uma simples opinião contrária aos desígnios dessas duas criaturas.
Sob o enfoque da ciência da cultura, o comandante do império germânico ainda deu algumas mostras de sobriedade. O documentário “Arquitetura da Destruição” exibe o projeto artístico do III Reich. Hitler pintava quadros, elaborava projetos, zelou por museus estrangeiros quando nas invasões que promoveu. Há uma cena incrível nesse filme, quando após a tomada de Paris, às 6 da manhã de 14 de junho de 1940, ele passeia tranqüilamente em um jipe na região central da cidade, admirando os monumentos, com a cidade totalmente deserta. Afirma: “A torre Eiffel é linda, pena que fica em Paris”. Alguns destes monumentos que contemplou foram erguidos durante o império de outro preservador, Napoleão Bonaparte.

A partir do período da 1ª Guerra Mundial (até hoje), os Estados Unidos não intervêm na imigração de cientistas e intelectuais. De Einstein a Noam Chomsky. Os resultados disso são o prestígio de alguns centros universitários, como os de Harvard e Massachussets. Entretanto, foi de fritar o cérebro a omissão do governo Bush quanto à preservação cultural nos últimos anos. Se eles conseguem, em questão de poucos minutos, intervir militarmente em qualquer parte do mundo, por que não impediram que o Taliban destruísse as estátuas dos Budas gigantes em 2001? Talvez você responda que não teriam um retorno financeiro, mas os yankees negociam tudo, e a cultura dá dinheiro sim (e também pede, como fazia o então Ministro da Cultura Gilberto Gil, e nesse ponto ele tinha absoluta razão). Ora, era só o Bush dominar o território (como eles sempre tentam fazer) e construir umas passarelas gigantes (assim como na Bahia e no Rio), ligando os Budas à Europa e ao leste asiático, cobrando 1 dólar por pessoa. Imagine!!!

No Iraque, em pleno centro de Bagdá, as pessoas podiam deixar casas e carros abertos, sem o risco de serem assaltados. Tal delito era punido severamente. Durante a guerra pseudocirúrgica em 1991, pouco vimos da destruição ocorrida na capital - a TV não mostrou. Mas na invasão em 2003, foi chocante ver os saques ao Museu de Bagdá; a destruição a prédios públicos; os milhares de civis mortos. Aí vem um estadunidense ignorante argumentar que alguém (até hoje não se sabe quem) derrubou o World Trade Center! Porém, por mais que nos esforcemos, não dá pra comparar aquele monte de ferro, sem uma janelinha visível, dezenas de elevadores e milhares de escritórios, reduto do capitalismo canibal, produtor de toneladas de lixo e esgoto diários, com uma cidade de 6 mil anos, um museu que guardava relíquias indicativas dos primórdios da civilização (aquela mesma civilização que os yankees alegam pertencer), os primeiros centros urbanos do mundo, a vastíssima cultura árabe, o Islã, tapetes, telas, achados arqueológicos incalculáveis e inigualáveis, papiros, esculturas.

Essa conveniência dos soldados estadunidenses com a pilhagem ao Museu de Bagdá foi proposital. Aqueles que saquearam foram procurados para, de maneira suja, negociarem as peças (como se a cultura pudesse ter um preço definido), e certamente poderemos contemplá-las nas universidades, museus e propriedades particulares, principalmente nos EUA. Aliás, esses próprios soldados são os que levaram, depois de décadas ausentes, drogas como a heroína e a cocaína de volta ao território iraquiano. Alguns intelectuais nos Estados Unidos estão sendo cúmplices desse mercado negro. Mesmo os que se manifestaram contra a guerra provavelmente ficarão orgulhosos com as novas peças em seus centros acadêmicos.

O Iraque enfrenta uma das maiores revoluções sociais em sua história, devido ao bombardeio, neste caso o mercadológico, das multinacionais estadunidenses. Não causa uma sensação estranha ao vermos obras de Cândido Portinari ou Tarsila do Amaral pertencerem a museus e colecionadores da Europa? Por que está no Museu do Louvre em Paris a Mona Lisa do pintor italiano Leonardo da Vinci? Imagine a reação das crianças iraquianas ao saberem que o acervo de 6 mil anos da cultura de seu país está em outro lugar? O conhecimento e a reflexão moral sobre o passado é imprescindível para a construção de um futuro com bases sólidas e dignas. As crianças iraquianas sofrerão as consequências dessa transferência de valores. As crianças estadunidenses também."


(escrito por Luciano Mano Negra em abril de 2002)

"Nossa Bagdá", de Péricles Cavalcanti

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