segunda-feira, 4 de abril de 2011

"ESQUENTA! A exploração da cultura popular brasileira"


Alguns parágrafos do artigo "ESQUENTA! A exploração da cultura popular brasileira", de Luís Eustáquio Soares, em 22 de março de 2011, publicado no boletim n. 634 do sítio Observatório da Imprensa;

"No Brasil, a TV Globo é o canal de televisão que melhor representa o duro jogo difuso entre o núcleo patriarcal-possessivo e a variabilidade 'não machista' daqueles perfis que supostamente não possuem capital, pois constitui um canal de televisão em que os dois lados da moeda são indistinguíveis, um é outro, de tal sorte que quanto mais seu sistema de aparência se apresenta como plástico, despojado, feminino, popular, jovem, gay, mais é patriarcal, mais é machista, mais é preconceituoso, mais é despótico, mais está a serviço do epicentro bélico-masculino do poder global: o poder do imperialismo americano.

E é aí que entra o papel desempenhado pela chamada cultura popular e sua exploração antes de tudo econômica pela TV Globo, que a transforma em mercadoria a pretexto de a estar apresentando como força viva do imaginário do povo brasileiro. Faz parte do objetivo do negócio! Por outro lado, além da exploração econômica propriamente dita, a cultura popular, especialmente depois que a TV Globo perdeu as três últimas eleições para presidente, está sendo incorporada em sua grade a fim de cumprir dois objetivos intercalados:

1 - A TV Globo perdeu as três últimas eleições para presidente da República. Por mais absurda que pareça essa afirmação, é óbvio que a Globo é um clandestino partido político, pois, diante da caricatura do núcleo rosto machista da direita brasileira, ela, como o lugar da difusão de cooptadas plasticidades não patriarcais, é que tem cumprido o papel de substituir/representar a caricatural dura direita brasileira. A cultura popular na atual grade da TV Globo serve ao propósito de se aproximar do povo brasileiro, a fim de "reconquistá-lo", seduzi-lo e induzi-lo a votar no candidato da machista, preconceituosa e inflexível direita brasileira, da e na próxima eleição para presidente da República.

2 - Ao mesmo tempo em que a exploração de estereotipados aspectos da cultura popular brasileira é incorporada pela nova grade de programação da TV Globo – com o objetivo de seduzir/induzir a votar nos candidatos aureolados por ela –, ela utiliza essa programação para procurar domesticar a cultura popular, reforçando preconceitos, clichês e, antes de tudo, a despolitizando, posto que fatalmente as questões econômicas, como as ligadas às causas da pobreza de nossa população, nunca serão focadas, razão pela qual a cultura popular aparece e aparecerá como alegre, alienada, sensual, "criativa", mas nunca insubmissa, consciente e coletivamente convocada a mudar seu destino de humilhada, despojada, roubada, submetida, excluída.

É esse duplo objetivo que cumpre um programa como Esquenta!, protagonizado pela atriz e apresentadora Regina Casé: o de se aproximar da população brasileira, com demagogias de desinteressadas promoções da cultura popular, com vistas à próxima eleição à Presidência do Brasil; e ao mesmo tempo o de apresentar a cultura popular de forma despolitizada, a serviço da Casa Grande, da concentração de riquezas, do duro rosto machista da opressão de classe. Regina Casé, sob esse ponto de vista, é a própria encarnação popular de um machismo difuso, falsamente libertário, despojado e sem preconceitos sexuais, étnicos e de classe, pela simples razão de que, no fundo e no raso, todo o seu suposto despojamento popular está a serviço da pior forma de opressão machista e patriarcal, que é a que mantém o rígido controle do bárbaro sistema de concentração de renda do Brasil.

A apresentadora de Esquenta! – sabendo ou não – cumpre o papel de culturalizar a pobreza. A estratégia de fundo de seu novo programa, portanto, é esta: a pobreza não é consequência de uma história injusta, de opressão de classe, mas de cultura, de estilo de vida. Ser pobre é lindo! – desde que ela não seja pobre, é claro. É por isso que um curioso cinismo espontâneo prevalece num programa como Esquenta!, pois nele a cultura popular é cinicamente manipulada, tendo em vista três aspectos: 1) é manipulada para ser apresentada como um alegre museu vivo do estereótipo do pobre como sujeito sexual, no lugar de um sujeito político; 2) é manipulada porque a suposta simpatia para com a cultura popular só vale ali, no programa, com sorrisos, tapinhas nas costas, para terminar com a extrema indiferença em relação à história pessoal, – de pobreza e dificuldades de toda sorte – que vive boa parte daquelas pessoas que aparecem ali, com exceção, é claro, daquelas já consagradas, por já possuírem capital midiático; 3) é, por fim, manipulada para projetar ainda mais quem já tem prestígio e capital midiáticos, razão pela qual a cultura popular serve de suporte, de pretexto, para projetar e dilatar a fama dos já famosos, principalmente atores, atrizes, músicos, empresários do próprio mundo midiático – mas não apenas –, jornalistas e muito especialmente modelos anoréxicas nacionais e internacionais, ao mesmo tempo em que os apresenta como a encarnação hipocritamente variável do respeito às diferenças, na suposição de que tais ungidos midiáticos seres sejam eles mesmos o rosto para inglês ver de uma cultura popular brasileira multicultural, na qual e através da qual pobres, anônimos, ricos e famosos se abraçam e dançam alegremente o carnaval de suas falências, mentiras, oportunismos, dilatando, dessa forma, o mito de que o Brasil é um país sem conflitos de classes, onde cada qual ocupa alegremente o seu lugar na história: o pobre na favela e o rico em condomínios fechados.

Como uma antropofagia às avessas, Regina Casé cumpre, portanto, esse deplorável papel de aproximar simbolicamente o invariável núcleo do rosto machista e eurocêntrico das classes dominantes brasileiras à variabilidade teatralizada da cultura popular, transformada, no seu Esquenta!, num literal esquenta o rendido e vendido corpo de um alienado setor massificado da cultura popular brasileira, porque o grande falo despótico branco e patriarcal está pronto para o estupro de tudo que pode fazer do mundo uma variabilidade sem fim de justiça, de liberdade e de alegria, de, enfim, cordéis encantados e entrelaçados por revolucionárias culturas de carnavais de liberdade, porque sem opressão de classe, porque não aceita e nem pode aceitar ser trampolim para a trapaça do rosto patriarcal e preconceituoso de nossas elites econômico-midiáticas.

O programa Esquenta! é, assim, o trampolim popular-massificado ou a costela de Adão da comissão de frente do racista e plutocrata rosto de nossas oportunistas classes parasitárias, a dançar o cinismo carnavalesco de sua dominação capital. Tudo como uma objetiva e inflexível questão de capital, de exploração econômica, pois tudo pode produzir valor, concentração de riqueza e fama, inclusive e antes de tudo a cultura popular como farsa apoteótica da dominação de classe."

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