sexta-feira, 20 de maio de 2011

Notas sobre Gaza


Quando as histórias sobre campos de concentração começaram a chegar ao Brasil, nos anos 1940, o horror das pessoas era tamanho que alguns duvidavam dos relatos da época. Hoje, com internet e celular, a mídia finge que não vê, ou então se acostumou à violência diária no Oriente Médio, no Iraque, no Afeganistão.
Este pobre blogueiro teve, por várias vezes, os batimentos cardíacos acelerados ao ler esse livro: Notas sobre Gaza, do jornalista maltês Joe Sacco, que desenha suas reportagens, neste caso demorou 7 anos para finalizar os quadrinhos sobre o massacre de palestinos em 1956 na vila de Khan Younis, evento ignorado pela História.
Ansiedade, tristeza, indignidade e até medo de passar páginas, coisas fáceis de sentir ao passar pelas mais de 400 do livro. Sacco faz trabalho de história oral ao entrevistar centenas de palestinos, confrontando informações, analisando cada descrição, compondo um banco de dados sobre os fatos que, segundo ele, são citados apenas em notas de rodapé de alguns livros.
Em Khan Younis, o exército israelense invadiu casa por casa da cidade, e matou todos os homens que encontrou. Lembra um pouco "A Lista de Schindler", não? Em Rafah, dias depois, jipes percorreram a cidade avisando a homens de 15 a 60 anos de idade para que comparecessem à escola do local. Na correria, palestinos eram alvejados, e quem não se apressasse ou tropeçasse era agredido com cassetetes. Para entrar na escola, recebiam uma paulada na cabeça, e feridos tinha que pular uma trincheira. Quem tropeçasse no arame ou caísse no buraco, era alvejado e por lá ficava - morto. Dentro da escola de Rafah, fizeram uma triagem por meio de entrevista e avaliação física: se fosse forte, era considerado um fedayee (combatente palestino), e ia preso. O trabalho do exército durou o dia todo e contou com a delação de traidores. Como o expediente dos militares encerrou, prenderam os altos e fortes e dispensaram os outros homens. A saída da escola foi tão tormentosa quanto a entrada: deram 5 minutos para saírem. Como havia a trincheira no portão, os homens tiveram que pular os muros da escola - que foram arrebentados no peito, devido ao esmagamento e pisoteio de quem tentou pular primeiro. Em entrevistas com a população envolvida nos acontecimentos das duas cidades, praticamente todos relataram roubos por parte do exército israelense, levando anéis, relógios, mulas, bicicletas e até carros.
Para a população palestina, 1956 é hoje. A História faz novo holocausto e quem ganha rótulo de terrorista são árabes, muculmanos e palestinos.
A verdade é que para a mídia e para Israel, palestinos não são considerados seres vivos. Incrível é que o relatado por Joe Sacco no livro aconteceu apenas 11 anos após o povo judeu sofrer tanto na Europa. Um Estado criado de um dia para outro, roubou a terra de quem lá morava há séculos e expulsou e matou quem resistiu - é essa a democracia que os Estados Unidos apoiam.


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Nossa solidariedade ao jogador de futebol brasileiro Marcelo Vieira, do Real Madrid. Em 15 de maio, durante durante as comemorações do Nakba, ele declarou em seu Facebook: “My heart with Palestinian now as they fighting with Israel”. Após essa declaração o Real Madri mandou cancelar a página dele no Facebook . E hoje, apesar de ele estar em ótima forma e até então ser o titular da lateral esquerda da Seleção Brasileira, ele foi cortado da Seleção. A não convocação do Marcelo Vieira para a Copa América causou estranheza em toda a imprensa especializada em futebol.

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