quinta-feira, 30 de junho de 2011

O capitalismo inventa dia para tudo


Ainda bem que inventaram o dia do Natal, pois só assim eu lembro que crianças não têm brinquedos de lojas e que algumas pessoas sentem frio e fome.

Ainda bem que inventaram o dia do livro, e nesse dia, como todos os outros, a única leitura que faço é de páginas da internet.

Ainda bem que inventaram o dia das mães, pois só aí eu me lembrarei de celebrar alguma coisa com ela, e vou tentar ficar pelo menos um dia no ano sem rebelar reclamar de algo.

Ainda bem que inventaram o dia da cultura, pois apesar de que não sei bem o que seja isso, eu lembrarei que é preciso fazer grandes investimentos nessa abstração.

Ainda bem que inventaram o dia do deficiente físico, pois nesse dia, e somente nesse, eu vou dar uma ajudinha àquele vizinho da cadeira de rodas que eu sempre ultrapasso, ou vou desocupar o assento daquele ônibus lotado reservado a ele (e isso só vai acontecer pois estava sendo feita uma reportagem bem na hora que eu sentei).

Ainda bem que inventaram o dia da Fraternidade Universal, e esse dia eu celebro: não discuto com ninguém, pois eu fico em casa quietinho, numa ressaca tremenda do reveillon.

Ainda bem que inventaram o dia do trabalho, e nesse dia, ora, eu não trabalho.

Ainda bem que tem o dia do índio, aquele povo estranho, que mora no meio do mato mas tem parabólica na aldeia. Mas por que será que tem o dia do bandeirante, aquele que matou quase todos os índios?

Ainda bem que inventaram o dia do aposentado. Aposentado é aquele que sobre na fila do banco ou do hospital.

Ainda bem que tem o dia da mulher, afinal, pelo menos um dia elas merecem ter. E, além disso, tem o dia do combate à violência contra elas, como se só nesse dia elas fossem agredidas.

...

As datas comemorativas são criadas para celebrar profissões, eventos, campanhas, que passam despercebidas durante o ano e que necessitam ser divulgadas. Mas publicitários, comerciantes e ideólogos em geral se aproveitam disso para criar as mais diversas celebrações, no intuito de incentivar o consumo, a troca de presentes, com os dias das bruxas, dos namorados, da pizza, do turista. E nós caímos nessa. A globalização e as relações de trabalho atuais nos ocupam até o último segundo e às vezes somente essas datas nos fará lembrar de algo. Esquecemo-nos que caridade, defesa da fauna, doador voluntário de sangue, latinidade, vovó não precisaria ter criado uma data para eles, deveríamos comemorar sempre. Acaba parecendo que o que ainda não foi criado é o que é comemorado todos os dias, como a piada de que o dia internacional do homem são todos os dias, exceto 8 de março. Neste raciocínio, fica fácil perceber por que ainda não foram criados os dias da novela, da revista burra, do sedentarismo, da insônia, da ignorância, da vaidade, da injustiça, da hipocrisia, da estupidez humana, da alienação, pois essas coisas a gente vivencia todos os dias, né?

Um comentário:

  1. Boa lembrança! Isto precisaria ser mais discutido por todos. Nossas crianças só aprendem sobre o Natal, Dia das mães, da criança, etc mas sempre com o apelo comercial.... e NADA MAIS!

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