quinta-feira, 9 de junho de 2011

Para alguns estudantes de Jornalismo...


Hoje eu o vejo todo “largadão”, usando colares exóticos, camiseta do Che, bermudão, barba, chinelo, bem descontraído.

Hoje eu ouço seus comentários radicais, você expondo a todos os seus ideais anarquistas, lendo Bakunin, recitando Marx.

Hoje você prega uma liberdade plena, procura usufruir ao máximo desta liberdade, aproveita sua juventude, curte seu rock n’roll, transa sem compromisso, dá seus pulinhos na mata da faculdade.

Hoje você participa de movimentos em apoio ao MST, vai a manifestações contra a ALCA, faz suas articulações, suas divulgações, distribui folhetos, prega cartazes, é um defensor de um socialismo solidário.

Hoje você luta constantemente pela honra profissional do jornalista, onde ele deve sempre dizer a verdade, da maneira como ela é realmente apresentada.

Hoje você argumenta a tudo e a todos, é dono de criticidade, de rebeldia, de um pensamento de esquerda.

Hoje você divulga a cultura de seu País, as manifestações artísticas de sua cidade, da parada gay até o repente, mostrando tudo de bom que rola por aí, lê as revistas alternativas.

... ... ...

Amanhã o verei preparando para uma entrevista para emprego, de blazer, com uma maquiagem transfigurante ou de barba bem-feita, aquelas roupas que amarrotam fácil (você nem usa o cinto do carro), e folheia às vezes a seção ‘Estilo’ da revista Caras à procura de um novo modelo, ou algo falando sobre ‘fitness’.

Amanhã você recitará um discurso superconservador, terá amigos no DEMo, no PSDB, repetirá o discurso da elite, elogiará em uma mesma frase o FHC, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, e considerará o livro “O fim da história”, do Fukuyama, um dos melhores que já leu.

Amanhã você será um big brother ambulante, investigará a todos e desconfiará de todos, querendo saber e contar tudo, tentando aprisionar o pensamento das massas, e concordando plenamente com o lema “Liberdade Duradoura” yankee.

Amanhã o verei execrando os trabalhadores rurais sem-terra, mesnosprezará o Mercosul, conspirará pró-Instituto Millenium e, como os jornalistas da CNN, dormirá nas barracas do Exército estadunidense e terá a covardia de pegar em armas e atirar contra iraquianos!!!

Amanhã o verei lutando constantemente pela honra da sua empresa, defendendo os ideais de seus patrões, seguindo a linha de pensamento da elite e divulgando a verdade conforme eles imaginam e de como o povo deverá entender.

Amanhã o verei em audiências, escutando silenciosamente o que chamam de ‘informações’, e ao término das coletivas você sairá com o rabo entre as pernas, sem formular uma única pergunta decente, no intuito de não ser censurado por ‘colegas de trabalho’ ou ser taxado de defensor dos vencidos (argh!...).

Amanhã o verei, como disse Renato Russo (você se lembra dele?), como um concorrente dos artistas, ameaçando-os, dizendo que o trabalho deles é fraco, que na Europa sempre tem algo melhor, que é você quem sabe o que é realmente bom, discriminará as minorias, divulgará apenas os grandes eventos promovidos pela burguesia, e proclamando que tudo o que é publicado na Veja-Folha-Globo é a verdade mais pura, absoluta e indiscutível.


(escrito em março de 2004, adaptado)

Um comentário:

  1. Há textos que nunca envelhecem. Este seu é muito atual e parece que sempre será.

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