sábado, 23 de julho de 2011

Não se fabricam mais deuses como antigamente...


É o fim do mundo. Nada mais tem graça. A que ponto chegamos, oh! pobre humanidade. Onde estão os líderes, os guias, os caudilhos deste planeta? Onde estão os salvadores deste mundo? Será se a mídia não percebe que eu quero me alienar? Que eu quero um deus para idolatrar, perseguir? Quero encher a minha casa de pôsteres, quero ser tocado para curar a minha escrófula. Quero alguém para fazer minhas oferendas, para pedir chuva ou sol! Preciso de alguém que só de ouvir a voz eu me acalme - ou me desespere.
Abarroto minha casa de revistas de super-heróis, estudo hagiografias, coleciono fotografias de craques do futebol, filósofos, cantores de rock. Sou um necrófilo da arte. Mas, por favor, me arranjem um deus! Face do Che bordada no chinelo, ou Marx desenhado na porta de casa. Não adianta, é tudo culpa daquele Weber e sua tendência à racionalização. Para ele até a música passa por suas racionalizações progressivas. A cura para a minha depressão é criar tipos ideais.
Weber tem que estar errado, afinal, ele se contradiz. Na dimensão iluminista de seu pensamento a história revela-se como um progresso, mas há um Weber pessimista, resignado, como afirma Gabriel Cohn. Onde está a magia do classicismo? Ford e sua ‘mecanicização’ detonaram tudo. É o desencantamento do mundo. A humanidade manipulada pela técnica e pela ciência. As portas do Olimpo foram lacradas. Viva Descartes! Vote em Isaac Newton – Partido da Racionalização.
Mas o próprio Weber alerta: a racionalização operada por meio da ciência e da técnica não é o caminho para o verdadeiro Deus ou para a felicidade. Portanto, irmão, alienai-vos! Abaixo o puritanismo que gerou a ética protestante e o espírito do capitalismo! A intelectualização crescente não significa um crescente conhecimento geral das condições da nossa vida.
Graças a Deus, ou aos deuses, ou ao próprio Weber, a história não é apenas o progresso linear em direção aos mundos burocráticos: há descontinuidades e estados de crise – e então formas rotineiras da vida mostram-se insuficientes para dominar um estado de crescentes tensões, pressões ou sofrimento. Surge o agente de ruptura dessa rotina: o líder carismático. Encham-se os balões!, usem as línguas-de-sogra (vale o trocadilho)!, sacerdotes do departamento de magia: faças as suas análises! Não estamos mais perdidos, temos um novo guia, de forças sobrenaturais, sobre-humanas! Rápido, rápido!, tudo tem que ser muito rápido, a alienação deve ser imediata! Produzam bonés, chaveiros, camisetas, canetas. Imagens de TV, flashes incessantes!!!
Oh! não, Weber de novo não! Lá vem ele de terno e gravata, todo formal, afirmando que graças a seu caráter renovador e irracional, o carisma é engolido pela lógica férrea das instituições e obrigatoriamente é rotinizado ou adaptado ao cotidiano, sendo retomado o caminho da institucionalização tradicional ou racional...Ora, ora, não se fabricam mais deuses como antigamente e, quando surgem, duram tão pouco. Onde estão os airton sennas, os sassás mutemas da vida??!
Não me importa nada disso. Não desistirei jamais, há o caráter fetichista da mercadoria, a Globo, o futebol, a moda, a propaganda subliminar, os tênis, a músicas, as promoções, as teorias fundamentalistas, as mentiras, vendas de produtos limitados, a Veja, internet, tamagoshis, tanta coisa divertida por aí, e eu vou ficar procurando deus de carne e osso??!

(escrito em dezembro de 2004)

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