quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um pouco de literatura marginal: "Carta de um pai morto"


Caro filho,

Você deve ter ouvido uns barulhos aqui fora, bem na hora que eu estava chegando. Vai sair daqui a pouco, impaciente porque eu não entro logo, pra que possa me pedir uma grana de novo. Vai encontrar uma cena que está acostumado ver somente em filmes. Antes de tudo quero te pedir uma coisa simples e muito complexa: não se desespere. Vai sentir todo o peso do mundo em suas costas, mas não esqueça que tudo é passageiro.
Estou morto. Estirado na rampinha da calçada que não quis me ajudar a construir por puro preconceito. Não precisa se arrepender de nada, meu amor por você é incondicional, e entendo a fase que está passando. Você e sua mãe viviam insistindo para mudar daqui da vila, mas não me arrependo de ter morado no lugar que vivi e vi crescer. E preferi investir o dinheirinho que tinha no carro que, aliás, não o verá. Dois adolescentes o levaram. Não reagi a nada, fiz tudo que eles mandaram, mas insisti em querer olhar para os olhos do que estava próximo a mim. Ele estava muito nervoso, imaginou que eu, ao olhá-lo intensamente, estava planejando alguma reação, e atirou em mim duas vezes. Perceberá apenas os vizinhos, gritos revoltados e silêncios súbitos. Alguns planejam agora mudar-se, outros trancafiar-se, alguns vão fazer orações. Evite os curiosos, cubra-me com jornais e lembre-se: a grande ajuda nesta hora está dentro de você. São nessas horas que demonstramos o que somos realmente.
Já ouço os gritos de sua mãe: segure-a. Leve-a para o quarto, não deixe que ela me veja, pois não quero que lembre de mim em um momento triste. Tenha apenas boas recordações. Deixe-a com o seu irmãozinho e vá cuidar dos procedimentos legais. Mas, por favor, só deixe de fazer uma coisa: não vá à polícia. Não se preocupe com o carro e nem com os garotos – eles já têm o que querem, e até o que não desejavam. Não foram eles que me mataram: foi o sistema. A queixa que fizer vai ser arquivada logo, não somos ricos, sou mais um número, a Hebe Camargo não vai se indignar com a minha morte. E nada de querer defender a pena de morte, pois se o Estado matar o garoto, quem vai matar o Estado? Desse jeito vão sobrar poucos na face da Terra, e muitos no fundo dela.
O que me matou, meu filho, foi o sistema patriarcal e corrupto que criamos e que vivemos. A nossa sociedade se conformou com governos patriarcais e corruptos. A sociedade que tem que gerir a própria proteção, temos que viver situações como esta, onde cada um cuida somente do próprio umbigo. Aqueles garotos têm pais desempregados, que, de tão desesperados por receberam nãos diariamente, tornaram-se revoltados, violentos, e as crianças cresceram em um mundo de fome, educação precária, onde a tv substitui os pais na (des)educação e acabou por aliená-los, seduzi-los para um mundo de dinheiro e poder.
Não vai adiantar a partir de agora querer mudar o mundo. Acalme-se. Lembra da música dos Racionais MC’s que dizia que “a revolta deixa um homem de paz imprevisível?” Pois bem, assim como eles, vamos fazer uma revolução social silenciosa aqui no nosso bairro pobre, já que a mídia nos ignora tanto. Tem gente poderosa que é capaz de fazer coisas para que o mundo continue com está que nem estes garotos teriam tal ousadia. O problema não é a falta de segurança, e sim a de investimentos em saúde e educação.
Ouvi dizer que uma pessoa consegue contaminar somente uma outra pessoa próxima. Espero ter morrido consciente do que fiz em minha vida e do que houve hoje na porta de casa. Espero que se contamine do papel social que deverá exercer a partir de agora, e que tudo o que acontece nesta vida deve ser encarado num processo contínuo. Recebi tiros pois olhava com muito amor para o garoto e, claro, ele se assustou, nunca tinha visto isso, e ele já havia recebido a instrução de que quando visse qualquer coisa de diferente era pra atirar. Se descobrir o meu corpo neste momento, verá que tenho um leve sorriso. Morro com a certeza de que aquele garoto viu um pouquinho de amor em mim.

Do pai que te ama muito, saudades.

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