quinta-feira, 15 de setembro de 2011

EUA: será se eles fazem (as coisas com) amor?


Faço-me diariamente esta pergunta sobre os yankees, e na minha estreita visão antropológica, admito que só aceitaria uma resposta afirmativa se eu tivesse nascido entre eles e fosse muito alienado, mas muito mesmo! Numa pesquisa realizada em 2002 nas ruas dos EUA, a maioria responde que não sabe porque o resto do mundo os odeia tanto, já que eles “ajudam” a todos os países pobres. E o governo os faz acreditar que o ódio à América é inveja devido à pujança econômica, cultural e militar. Ora, toda essa riqueza que ostentam somos nós que fornecemos. São séculos levando nossos recursos naturais e taxando tudo o que é nosso. Controlam o nosso crescimento, nos impõem ditaduras, e ainda querem o nosso amor por eles? Olha, concordo que são bons em muitas coisas (o dinheiro também faz alguns milagres), mas a própria bandeira dos EUA já é um código de barras!!! Assistindo o clipe da música “American Pie” da Madonna, onde ela mostra dezenas de tipos de estadunidenses, todos com uma cara muito humilde, dá uma pontada (pequena) no coração e me faz refletir: eles também são gente... Mas será se não estou sendo mais uma vítima da propaganda subliminar?
O cinema, por exemplo. Como não se encantar com e como não admitir a influência do cinema em nossas vidas? (apesar de o Oscar ser extremamente xenófobo, mesmo com alguns disfarces) Depois de assistir um bom filme dá até uma certa paz, mas logo, logo sentimos ou percebemos o cheiro de dinheiro por aí. Parece que eles não se aquietam, pensam e sonham com isso as 24 horas do dia. É só algo fazer sucesso que já estão a bordar camisetas, bonés e fazer chaveirinhos. O pior é saber que alguns filmes deixam de lado o lazer desinteressado ou o ócio prazeroso para promover o preconceito. O fedor imperialista vem desde cedo, quando contrataram o herói mexicano Pancho Villa para gravar no início dos anos 1900, onde os produtores pediam a ele para executar seus inimigos na hora da gravação. E logo depois, quando Villa estava roubando a cena, trataram de o denegrir publicamente e espalhar notícias falaciosas. Os alienígenas dos filmes da década de 1960 eram alegorias sobre o socialismo, e recentemente empresários da indústria cultural foram convocados pelo governo para juntos, visando todo o mundo, recriar o clima de guerra, fomentar o patriotismo e o nacionalismo exacerbado. Como escreveu Eduardo Galeano, “a realidade imita o cinema: tudo explode, as crianças recebem mísseis do filme Atlantis na caixa de Lanche Feliz do Mcdonald’s, e é cada vez mais difícil distinguir entre o sangue e o ketchup”.
Quando eles decidem ter um filho, será se fazem (isso com) amor? Ora, nem mesmo as crianças escapam. Afinal, por que você acha que foi criado o “jogo educacional” War? A guerra é algo normal, necessário, o ideal e o poderio militar devem estar presentes na criança desde cedo. As notícias de guerra na tv são apresentadas de forma lúdica. É um país que 'precisa' de guerra, para equilibrar a economia e eleger presidentes. E após o 11 de setembro de 2001, que demonstrou que não são invencíveis, bem disse o jornalista José Arbex Júnior: "guerra preventiva, nazismo a galope”.
Mas aí surge algo bom: a tecnologia impulsionada pela Guerra Fria serviu para prolongar e tornar mais venturosa a trajetória humana na Terra – desde a internet até a elevação da expectativa de vida em países pobres. E a música, hein?, e o rock’n roll, Elvis... Mesmo sem entender a letra, será se eu posso ouvir tranquilamente, sem a preocupação de me alienar? Alguns sucessos, como os flashbacks The Milk Today, California Dreams ou Da Doo Ron Ron, a meu ver totalmente ingênuos, será se eles foram feitos com amor?
Não, não tem como, confesso difícil perceber o amor até na psicologia coletiva da população. Vivem em frenesi! Têm que estar ligados a toda hora, a cada minuto. Se desligam o rádio, têm que ligar a televisão. Nada de ver paisagens pela viagem de trem: de avião, ora, é mais rápido. E ainda afirmam sem um pingo de ironia: “É o progresso!” Casam-se e divorciam-se rapidamente e, de repente, a mulher desata num choro compulsivo, copioso e incontrolável, reclamando no colo da mãe que está na flor da idade e não consegue arranjar um namorado. É uma população alienada, cheia de dramas, medrosa, obesa, consumista, individualista, egoísta, hipocondríaca, racista, xenófoba, habituada a culpar os outros por seus problemas, incentivada pelo governo à deduragem, se imaginam os senhores do universo, donos do mundo, eleitos de Deus, viciados em armas e hambúrgueres. São os campeões em consumo de drogas, em abortos, em população carcerária. Mas também são os maiores campeões olímpicos. Será que pensam em seu país ao ver a bandeira lá em cima, será que sentem amor naquele momento?
Sim, eles vão se redimir! Eles têm Michael Moore para os alertarem com o livro “Uma Nação de Idiotas” (e nós temos Cláudio Júlio Tognolli que, vendo que aspiramos o ideal yankee, escreveu para nós “Idiotas ao Quadrado”). Eles ainda têm Spike Lee e Susan Sontag. E também Louis Armstrong, Orson Welles, Hemigway, Ginsberg, Whitman, Joan Baez, Miller, Albee, Steinbeck, Gore Vidal… Oh!, sim, eles têm amor sim!...
Mas de repente observo que este superimperialismo tem preceitos derivados do nazismo alemão, que a economia se come por dentro, sofrendo abalos, falências, instabilidades agudas nas bolsas, que rompem de uma hora para outra tratados políticos internacionais. Descubro que os primeiros colonos distribuíam cobertores contaminados aos nativos. Então leio o livro “As veias abertas da América Latina” do Galeano e vejo pelas ruas caricaturas do Tio Sam apontando o dedo para si mesmo, e ainda querem que eu veja tudo isso como normal?! Não, não tem como dizer que há amor aí. Moralidade, cidadania, liberdade não têm pátria, e para eu poder identificar amor no que eles fazem, terei que ver o amor deles por todo mundo.

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